Somos pessoas diferentes quando falamos outra língua?
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Quem fala mais do que uma língua poderá já ter sentido que não se expressa exatamente da mesma forma em todas elas.
Em português, uma pessoa pode sentir-se mais reservada, cuidadosa ou emocional. Em inglês, talvez fale de forma mais direta, descontraída ou confiante. Certas palavras surgem naturalmente numa língua, mas parecem artificiais quando são traduzidas. Algumas experiências são mais fáceis de contar numa língua estrangeira, enquanto outras parecem só fazer sentido na língua materna.
Será que mudamos de personalidade quando falamos outra língua?
Não propriamente. Continuamos a ser a mesma pessoa. No entanto, cada língua pode ativar diferentes memórias, emoções, referências culturais e formas de nos relacionarmos com os outros. Por isso, falar outra língua pode fazer emergir uma versão ligeiramente diferente de nós próprios.
A língua não serve apenas para transmitir informação
É comum pensarmos na língua como um instrumento: temos uma ideia, escolhemos palavras e transmitimo-la a outra pessoa.
Na realidade, a relação entre linguagem e pensamento é mais complexa. A língua que utilizamos pode influenciar aquilo em que prestamos atenção, a maneira como organizamos uma experiência e até a forma como descrevemos aquilo que sentimos.
Existem conceitos que têm uma tradução direta, mas há outros que perdem parte do significado quando passam de uma língua para outra. Uma palavra pode ter associações culturais, emocionais e pessoais que não estão presentes no seu equivalente.
Por exemplo, dizer “saudade” não corresponde exatamente a dizer “I miss you” ou “nostalgie”. As expressões podem aproximar-se, mas não ocupam necessariamente o mesmo lugar na experiência emocional de quem as utiliza.
Assim, aprender outra língua não significa apenas aprender palavras diferentes para designar as mesmas coisas. Significa também entrar em contacto com outras formas de interpretar e organizar a realidade.
Cada língua está ligada a uma história diferente
As línguas que falamos não são aprendidas todas no mesmo momento nem nas mesmas circunstâncias.
A língua materna costuma estar ligada à infância, à família, à escola, às primeiras relações e às primeiras experiências emocionais. Uma segunda língua pode ter sido aprendida durante a adolescência ou idade adulta, através de viagens, estudos, trabalho, filmes, música ou relações com pessoas de outros países.
Cada língua vai, assim, ficando associada a contextos diferentes.
Uma pessoa que aprendeu inglês através de viagens, amizades internacionais e experiências positivas poderá associá-lo a maior liberdade e espontaneidade. Em contraste, a língua materna poderá estar mais ligada às expectativas familiares, às responsabilidades e à forma como aprendeu que deveria comportar-se.
Também pode acontecer o contrário. Para quem vive num país estrangeiro, a segunda língua pode estar associada ao trabalho, à burocracia ou à sensação de não conseguir expressar-se com toda a precisão. A língua materna poderá então representar maior segurança, intimidade e pertença.
Não é apenas a estrutura da língua que produz estas diferenças. É também a história vivida através dela.
Podemos parecer mais extrovertidos noutra língua
Algumas pessoas relatam sentir-se mais confiantes, sociáveis ou diretas quando falam uma língua estrangeira.
Isto não significa necessariamente que tenham desenvolvido uma nova personalidade. Pode significar que a segunda língua está associada a contextos nos quais aprenderam a comportar-se de outra maneira.
A cultura também influencia aquilo que é considerado uma forma adequada de comunicar. Algumas culturas valorizam uma comunicação mais direta e informal. Outras dão maior importância à prudência, à hierarquia ou à escolha cuidadosa das palavras.
Quando falamos outra língua, podemos adaptar-nos, mesmo sem perceber, às normas sociais que lhe associamos. Mudam o tom de voz, os gestos, o sentido de humor e a distância que mantemos em relação às outras pessoas.
Além disso, falar numa língua estrangeira pode dar uma sensação de liberdade. Certas frases parecem menos embaraçosas porque não estão tão ligadas às regras e expectativas que interiorizámos desde a infância. É como se existisse alguma distância entre aquilo que dizemos e a forma como habitualmente nos avaliamos.
Por essa razão, alguém pode sentir-se mais espontâneo em inglês e mais contido em português, ou exatamente o contrário.
As emoções podem ter intensidades diferentes
A língua materna costuma ter uma ligação emocional particularmente forte.
Foi nela que muitas pessoas ouviram as primeiras palavras de afeto, conforto, crítica, zanga ou medo. As palavras não foram aprendidas apenas através de definições, mas também através de situações emocionalmente marcantes.
Por isso, determinadas expressões podem provocar uma reação mais intensa quando são ouvidas ou pronunciadas na língua materna. Uma frase de afeto pode parecer mais íntima. Uma crítica pode ser sentida de forma mais dolorosa. Uma recordação poderá tornar-se mais vívida quando é contada na língua em que foi originalmente vivida.
Uma língua aprendida mais tarde pode criar maior distância emocional. Isso poderá ajudar algumas pessoas a falar sobre acontecimentos difíceis, constrangedores ou dolorosos.
Contar uma experiência traumática numa segunda língua, por exemplo, pode parecer menos intenso do que contá-la na língua materna. Esta distância pode facilitar a comunicação, mas também pode funcionar como uma forma de proteção emocional.
Isto não significa que aquilo que é dito seja menos verdadeiro. Significa apenas que a língua utilizada pode alterar a proximidade emocional com a experiência.
Pensamos de forma diferente numa língua estrangeira?
A investigação sugere que utilizar uma língua estrangeira pode influenciar alguns processos de decisão.
Quando pensamos numa língua que dominamos menos, o raciocínio tende a ser mais lento e deliberado. Podemos prestar mais atenção às palavras, analisar melhor a estrutura das frases e afastar-nos parcialmente da reação emocional imediata.
Este fenómeno é por vezes designado por “efeito da língua estrangeira”. Em alguns estudos, os participantes apresentaram decisões menos influenciadas por determinados enviesamentos quando os problemas eram apresentados numa segunda língua.
No entanto, isto não significa que pensar numa língua estrangeira seja sempre mais racional ou mais correto. Um menor domínio linguístico também pode dificultar a compreensão de informações complexas, limitar o vocabulário disponível e aumentar o esforço mental.
A influência da língua depende de vários fatores: o nível de fluência, a idade em que foi aprendida, o contexto em que é utilizada e a ligação emocional que a pessoa desenvolveu com ela.
A língua escolhida numa consulta de psicologia
Estas diferenças tornam-se especialmente relevantes numa consulta de psicologia.
A psicoterapia depende, em grande parte, da capacidade de colocar em palavras experiências internas. É através da linguagem que se descrevem emoções, pensamentos, memórias, relações e dificuldades que, por vezes, nunca tinham sido partilhadas.
Algumas pessoas preferem realizar as consultas na sua língua materna porque encontram nela maior precisão emocional. Conseguem explicar melhor aquilo que sentem e aceder mais facilmente a memórias antigas.
Outras preferem falar numa segunda língua. A distância emocional proporcionada por essa língua pode ajudá-las a abordar assuntos que seriam demasiado intensos, embaraçosos ou dolorosos na língua materna.
Também é possível que a preferência mude consoante o tema. Uma pessoa pode falar em inglês sobre o trabalho, por ser a língua que utiliza profissionalmente, e passar para português ao recordar uma situação familiar. Certas palavras podem surgir apenas numa língua porque é nela que melhor representam a experiência.
Esta mudança não precisa de ser vista como um obstáculo. Pode, pelo contrário, fornecer informação importante sobre a maneira como a pessoa organiza emocionalmente diferentes partes da sua vida.
Na minha prática clínica, disponibilizo consultas de psicologia em português e em inglês. A possibilidade de escolher a língua em que a pessoa se sente mais confortável pode facilitar a comunicação e permitir que o acompanhamento respeite melhor a sua história linguística, cultural e emocional.
Pretendo, futuramente, disponibilizar também consultas em francês, alargando esta possibilidade a pessoas que se expressem mais facilmente nessa língua.
Mais do que procurar uma tradução perfeita de cada frase, é importante criar um espaço em que a pessoa possa comunicar com autenticidade. Em alguns momentos, isso poderá significar utilizar uma língua de forma predominante. Noutros, poderá envolver alternar entre línguas.
A língua também deve ser considerada na avaliação psicológica
A questão torna-se igualmente importante quando são aplicados testes e instrumentos de avaliação psicológica.
Uma pessoa pode conversar fluentemente numa segunda língua e, ainda assim, ter mais dificuldade em compreender expressões abstratas, vocabulário emocional ou instruções complexas. O desempenho numa tarefa pode, por isso, refletir não apenas as suas capacidades psicológicas, mas também o domínio da língua utilizada.
As traduções de instrumentos também não são completamente neutras. Uma pergunta que parece simples numa língua pode adquirir outro significado cultural ou emocional noutra.
Por esse motivo, a língua preferida, o percurso de aprendizagem e o contexto cultural devem ser considerados na interpretação dos resultados. Avaliar uma pessoa numa língua que não domina plenamente pode levar a conclusões imprecisas, sobretudo quando os resultados são analisados sem ter em conta o seu percurso linguístico.
Não temos várias personalidades, mas várias formas de sermos nós próprios
Falar línguas diferentes não cria personalidades completamente separadas. Contudo, cada língua pode dar acesso a diferentes partes da nossa experiência.
Uma língua pode aproximar-nos da infância e da família. Outra pode estar associada à independência, ao trabalho, às viagens ou a uma relação importante. Uma pode tornar as emoções mais intensas; outra pode proporcionar a distância necessária para conseguirmos falar sobre elas.
As diferenças que sentimos não significam que uma das versões seja falsa. Todas fazem parte da mesma pessoa.
A linguagem não é apenas uma forma de expressar aquilo que somos. É também um dos contextos através dos quais construímos, recordamos e compreendemos a nossa própria história.
Talvez, por isso, a pergunta mais útil não seja “qual destas versões é realmente a minha?”, mas sim: “o que é que cada língua me permite sentir, pensar e dizer?”
Referências
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Marian, V., & Kaushanskaya, M. (2004). Self-construal and emotion in bicultural bilinguals. Journal of Memory and Language, 51(2), 190–201.
Pavlenko, A. (2005). Emotions and multilingualism. Cambridge University Press.
Pérez Foster, R. (1992). Psychoanalysis and the bilingual patient: Some observations on the influence of language choice on the transference. Psychoanalytic Psychology, 9(1), 61–76.
Rolland, L., Dewaele, J.-M., & Costa, B. (2017). Multilingualism and psychotherapy: Exploring multilingual clients’ experiences of language practices in psychotherapy. International Journal of Multilingualism, 14(1), 69–85.
People who speak more than one language may already have felt that they do not express themselves in exactly the same way in all of them.
In Portuguese, someone may feel more reserved, careful or emotional. In English, they may speak in a more direct, relaxed or confident way. Some words come naturally in one language, but feel artificial when translated. Some experiences also seem easier to explain in one language than in another.
Does this mean that we change personality when we speak another language?
Not exactly. We remain the same person. However, each language can activate different memories, emotions, cultural references and ways of relating to others. For this reason, speaking another language can bring forward a slightly different version of the same person.
Language is not only a way of transmitting information
We often think of language as a tool: we have an idea, choose words and communicate it to another person.
In reality, the relationship between language and thought is more complex. The language we use can influence what we pay attention to, how we organise an experience and even how we describe what we feel.
Some concepts have a direct translation, but others lose part of their meaning when they move from one language to another. A word can carry cultural, emotional and personal associations that are not present in its apparent equivalent.
For example, saying “saudade” is not exactly the same as saying “I miss you” or “nostalgie”. These expressions may be close, but they do not necessarily occupy the same place in the emotional experience of the person using them.
Learning another language, then, is not only learning different words for the same things. It is also coming into contact with other ways of interpreting and organising reality.
Each language is connected to a different history
The languages we speak are not all learned at the same moment or in the same circumstances.
A first language is usually linked to childhood, family, school, early relationships and early emotional experiences. A second language may have been learned during adolescence or adulthood, through travel, study, work, films, friendships or migration.
Each language therefore becomes associated with different contexts.
Someone who learned English through travel, international friendships and positive experiences may associate it with greater freedom and spontaneity. By contrast, their first language may be more connected to family expectations, responsibilities and older emotional memories.
The opposite can also happen. For someone living in another country, the second language may be associated with work, bureaucracy or the feeling of not being able to express themselves with full precision. Their first language may then represent greater safety, intimacy and emotional depth.
It is not only the structure of the language that produces these differences. It is also the history lived through it.
We may seem more extroverted in another language
Some people report feeling more confident, sociable or direct when speaking a foreign language.
This does not necessarily mean that they have developed a new personality. It may mean that the second language is associated with contexts in which they learned to behave differently.
Culture also influences what is considered an appropriate way to communicate. Some cultures value more direct and informal communication. Others place greater importance on caution, hierarchy or a careful choice of words.
When we speak another language, we may adapt, even without noticing, to the social norms we associate with it. Tone of voice, gestures, humour and the distance we keep from other people may all shift.
Speaking in a foreign language can also create a sense of freedom. Certain sentences may feel less embarrassing because they are not so closely tied to the rules and expectations we internalised in childhood. It is as if there were some distance between what is said and the most automatic emotional response.
For that reason, someone may feel more spontaneous in English and more contained in Portuguese, or exactly the opposite.
Emotions can have different intensities
A first language often has a particularly strong emotional connection.
It is the language in which many people heard their first words of affection, comfort, criticism, anger or fear. Words were not learned only through definitions, but also through emotionally significant situations.
For this reason, certain expressions can provoke a stronger reaction when they are heard or spoken in the first language. A phrase of affection may feel more intimate. Criticism may hurt more. A memory may become more vivid.
A language learned later can create more emotional distance. This may help some people speak about difficult, embarrassing or painful events.
For example, describing a traumatic experience in a second language may feel less intense than describing it in the first language. This distance can facilitate communication, but it can also work as a form of emotional protection.
This does not mean that what is said is less true. It simply means that the language used can alter the emotional closeness to the experience.
Do we think differently in a foreign language?
Research suggests that using a foreign language can influence some decision-making processes.
When we think in a language we master less fully, reasoning tends to become slower and more deliberate. We may pay more attention to words, analyse sentence structure more carefully and distance ourselves partly from the immediate emotional reaction.
This phenomenon is sometimes called the “foreign language effect”. In some studies, participants showed decisions less influenced by certain biases when problems were presented in a second language.
However, this does not mean that thinking in a foreign language is always more rational or more correct. Lower linguistic proficiency can also make complex information harder to understand, limit available vocabulary and increase mental effort.
The influence of language depends on several factors: fluency, the age at which the language was learned, the context in which it is used and the emotional relationship the person has developed with it.
Language choice in psychological consultation
These differences become especially relevant in psychological consultation.
Psychotherapy depends, to a large extent, on the ability to put inner experiences into words. Through language, people describe emotions, thoughts, memories, relationships and difficulties that may never have been shared before.
Some people prefer to have sessions in their first language because they find greater emotional precision there. They can explain what they feel more clearly and access older memories more easily.
Others prefer to speak in a second language. The emotional distance provided by that language may help them approach subjects that would feel too intense, embarrassing or painful in their first language.
Preferences may also change depending on the topic. Someone may speak in English about work, because it is the language they use professionally, and switch to Portuguese when remembering a family situation. Certain words may only appear in one language because that is where they were learned and lived.
This shift does not need to be seen as an obstacle. On the contrary, it can provide important information about the way a person emotionally organises different parts of their life.
In my clinical practice, I offer psychological consultations in Portuguese and English. Being able to choose the language in which a person feels most comfortable can facilitate communication and allow therapy to better respect their history and identity.
In the future, I intend to also offer consultations in French, extending this possibility to people who express themselves more easily in that language.
More than searching for a perfect translation of every sentence, what matters is creating a space where the person can communicate authentically. At times, this may mean using one language most of the time. At other times, it may involve moving between languages when that movement helps something important to be expressed.
Language should also be considered in psychological assessment
This question is equally important when psychological tests and assessment instruments are used.
A person may speak fluently in a second language and still have more difficulty understanding abstract expressions, emotional vocabulary or complex instructions. Performance on a task may therefore reflect not only cognitive or emotional abilities, but also the relationship with the language in which the assessment is carried out.
Translations of instruments are not completely neutral either. A question that seems simple in one language may acquire another cultural or emotional meaning in another.
For this reason, preferred language, learning history and cultural context should be considered when interpreting results. Assessing someone in a language they do not fully master can lead to imprecise conclusions, especially when results are used to make important decisions.
We do not have several personalities, but several ways of being ourselves
Speaking different languages does not create completely separate personalities. However, each language can give access to different parts of our experience.
One language may bring us closer to childhood and family. Another may be associated with independence, work, travel or an important relationship. One may intensify emotions; another may provide the distance needed to speak about them.
The differences we feel do not mean that one version is false. They all belong to the same person.
Language is not only a way of expressing who we are. It is also one of the contexts through which we build, remember and understand our own history.
Perhaps, for this reason, the most useful question is not “which of these versions is really me?”, but rather: “what does each language allow me to feel, think and say?”
References
Costa, A., Foucart, A., Arnon, I., Aparici, M., & Apesteguia, J. (2014). Piensa twice: On the foreign language effect in decision making. Cognition, 130(2), 236–254.
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Rolland, L., Dewaele, J.-M., & Costa, B. (2017). Multilingualism and psychotherapy: Exploring multilingual clients’ experiences of language practices in psychotherapy. International Journal of Multilingualism, 14(1), 69–85.
Les personnes qui parlent plus d’une langue ont peut-être déjà eu l’impression de ne pas s’exprimer exactement de la même manière dans chacune d’elles.
En portugais, une personne peut se sentir plus réservée, prudente ou émotive. En anglais, elle peut parler de façon plus directe, détendue ou assurée. Certains mots viennent naturellement dans une langue, mais semblent artificiels lorsqu’ils sont traduits. Certaines expériences semblent aussi plus faciles à expliquer dans une langue que dans une autre.
Est-ce que cela signifie que nous changeons de personnalité lorsque nous parlons une autre langue ?
Pas vraiment. Nous restons la même personne. Cependant, chaque langue peut activer des souvenirs, des émotions, des références culturelles et des façons différentes d’entrer en relation avec les autres. Parler une autre langue peut donc faire émerger une version légèrement différente de la même personne.
La langue ne sert pas seulement à transmettre une information
Nous pensons souvent la langue comme un instrument : nous avons une idée, nous choisissons des mots et nous la transmettons à quelqu’un d’autre.
En réalité, la relation entre langage et pensée est plus complexe. La langue que nous utilisons peut influencer ce à quoi nous prêtons attention, la façon dont nous organisons une expérience et même la manière dont nous décrivons ce que nous ressentons.
Certains concepts ont une traduction directe, mais d’autres perdent une partie de leur sens lorsqu’ils passent d’une langue à une autre. Un mot peut porter des associations culturelles, émotionnelles et personnelles qui ne sont pas présentes dans son équivalent apparent.
Par exemple, dire « saudade » ne correspond pas exactement à dire « I miss you » ou « nostalgie ». Ces expressions peuvent s’approcher les unes des autres, mais elles n’occupent pas nécessairement la même place dans l’expérience émotionnelle de la personne qui les utilise.
Apprendre une autre langue ne signifie donc pas seulement apprendre d’autres mots pour désigner les mêmes choses. Cela signifie aussi entrer en contact avec d’autres façons d’interpréter et d’organiser la réalité.
Chaque langue est liée à une histoire différente
Les langues que nous parlons ne sont pas toutes apprises au même moment ni dans les mêmes circonstances.
La langue maternelle est souvent liée à l’enfance, à la famille, à l’école, aux premières relations et aux premières expériences émotionnelles. Une seconde langue peut avoir été apprise à l’adolescence ou à l’âge adulte, à travers les voyages, les études, le travail, les films, les amitiés ou la migration.
Chaque langue reste ainsi associée à des contextes différents.
Une personne qui a appris l’anglais grâce aux voyages, aux amitiés internationales et à des expériences positives peut l’associer à plus de liberté et de spontanéité. À l’inverse, sa langue maternelle peut être davantage liée aux attentes familiales, aux responsabilités et à des souvenirs émotionnels plus anciens.
L’inverse peut aussi se produire. Pour une personne vivant dans un pays étranger, la seconde langue peut être associée au travail, à la bureaucratie ou au sentiment de ne pas pouvoir s’exprimer avec toute la précision souhaitée. La langue maternelle peut alors représenter plus de sécurité, d’intimité et de profondeur émotionnelle.
Ce n’est pas seulement la structure de la langue qui produit ces différences. C’est aussi l’histoire vécue à travers elle.
Nous pouvons paraître plus extravertis dans une autre langue
Certaines personnes disent se sentir plus confiantes, sociables ou directes lorsqu’elles parlent une langue étrangère.
Cela ne signifie pas nécessairement qu’elles ont développé une nouvelle personnalité. Cela peut signifier que la seconde langue est associée à des contextes dans lesquels elles ont appris à se comporter autrement.
La culture influence aussi ce qui est considéré comme une manière appropriée de communiquer. Certaines cultures valorisent une communication plus directe et informelle. D’autres accordent davantage d’importance à la prudence, à la hiérarchie ou au choix soigneux des mots.
Lorsque nous parlons une autre langue, nous pouvons nous adapter, parfois sans nous en rendre compte, aux normes sociales que nous lui associons. Le ton de la voix, les gestes, le sens de l’humour et la distance que nous gardons avec les autres peuvent changer.
Parler dans une langue étrangère peut aussi donner une impression de liberté. Certaines phrases semblent moins embarrassantes parce qu’elles sont moins liées aux règles et aux attentes intériorisées depuis l’enfance. C’est comme s’il existait une certaine distance entre ce qui est dit et la réaction émotionnelle la plus automatique.
Pour cette raison, quelqu’un peut se sentir plus spontané en anglais et plus contenu en portugais, ou exactement l’inverse.
Les émotions peuvent avoir des intensités différentes
La langue maternelle possède souvent un lien émotionnel particulièrement fort.
C’est dans cette langue que beaucoup de personnes ont entendu les premiers mots d’affection, de réconfort, de critique, de colère ou de peur. Les mots n’ont pas été appris seulement à travers des définitions, mais aussi à travers des situations émotionnellement marquantes.
Certaines expressions peuvent donc provoquer une réaction plus intense lorsqu’elles sont entendues ou prononcées dans la langue maternelle. Une phrase affectueuse peut sembler plus intime. Une critique peut être ressentie plus douloureusement. Un souvenir peut devenir plus vif.
Une langue apprise plus tard peut créer davantage de distance émotionnelle. Cela peut aider certaines personnes à parler d’événements difficiles, embarrassants ou douloureux.
Raconter une expérience traumatique dans une seconde langue, par exemple, peut sembler moins intense que la raconter dans la langue maternelle. Cette distance peut faciliter la communication, mais elle peut aussi fonctionner comme une forme de protection émotionnelle.
Cela ne signifie pas que ce qui est dit est moins vrai. Cela signifie simplement que la langue utilisée peut modifier la proximité émotionnelle avec l’expérience.
Pensons-nous différemment dans une langue étrangère ?
La recherche suggère que l’utilisation d’une langue étrangère peut influencer certains processus de décision.
Lorsque nous pensons dans une langue que nous maîtrisons moins, le raisonnement tend à devenir plus lent et plus délibéré. Nous pouvons prêter davantage attention aux mots, analyser plus soigneusement la structure des phrases et nous éloigner partiellement de la réaction émotionnelle immédiate.
Ce phénomène est parfois appelé « effet de la langue étrangère ». Dans certaines études, les participants ont pris des décisions moins influencées par certains biais lorsque les problèmes étaient présentés dans une seconde langue.
Cependant, cela ne signifie pas que penser dans une langue étrangère soit toujours plus rationnel ou plus juste. Une maîtrise linguistique plus limitée peut aussi rendre les informations complexes plus difficiles à comprendre, limiter le vocabulaire disponible et augmenter l’effort mental.
L’influence de la langue dépend de plusieurs facteurs : le niveau de maîtrise, l’âge auquel elle a été apprise, le contexte dans lequel elle est utilisée et le lien émotionnel que la personne a développé avec elle.
Le choix de la langue en consultation psychologique
Ces différences deviennent particulièrement importantes en consultation psychologique.
La psychothérapie dépend, en grande partie, de la capacité à mettre en mots les expériences internes. C’est par le langage que l’on décrit les émotions, les pensées, les souvenirs, les relations et les difficultés qui, parfois, n’avaient jamais été partagés.
Certaines personnes préfèrent réaliser les séances dans leur langue maternelle parce qu’elles y trouvent une plus grande précision émotionnelle. Elles parviennent à expliquer plus clairement ce qu’elles ressentent et à accéder plus facilement à des souvenirs anciens.
D’autres préfèrent parler dans une seconde langue. La distance émotionnelle offerte par cette langue peut les aider à aborder des sujets qui seraient trop intenses, embarrassants ou douloureux dans la langue maternelle.
La préférence peut aussi changer selon le thème. Une personne peut parler en anglais du travail, parce que c’est la langue qu’elle utilise professionnellement, puis passer au portugais en évoquant une situation familiale. Certains mots peuvent apparaître seulement dans une langue parce que c’est dans cette langue qu’ils ont été appris et vécus.
Ce changement ne doit pas nécessairement être vu comme un obstacle. Il peut, au contraire, apporter une information importante sur la manière dont la personne organise émotionnellement différentes parties de sa vie.
Dans ma pratique clinique, je propose des consultations de psychologie en portugais et en anglais. La possibilité de choisir la langue dans laquelle la personne se sent le plus à l’aise peut faciliter la communication et permettre à l’accompagnement de mieux respecter son histoire et son identité.
À l’avenir, j’ai l’intention de proposer également des consultations en français, afin d’élargir cette possibilité aux personnes qui s’expriment plus facilement dans cette langue.
Plus que chercher une traduction parfaite de chaque phrase, il importe de créer un espace où la personne peut communiquer avec authenticité. Parfois, cela peut vouloir dire utiliser principalement une langue. À d’autres moments, cela peut impliquer de passer d’une langue à l’autre lorsque ce mouvement aide à exprimer quelque chose d’important.
La langue doit aussi être prise en compte dans l’évaluation psychologique
Cette question est également importante lorsque des tests et des instruments d’évaluation psychologique sont utilisés.
Une personne peut converser couramment dans une seconde langue et avoir malgré tout plus de difficulté à comprendre des expressions abstraites, un vocabulaire émotionnel ou des consignes complexes. La performance dans une tâche peut donc refléter non seulement ses capacités cognitives ou émotionnelles, mais aussi sa relation avec la langue dans laquelle l’évaluation est réalisée.
Les traductions d’instruments ne sont pas complètement neutres non plus. Une question qui semble simple dans une langue peut acquérir une autre signification culturelle ou émotionnelle dans une autre.
Pour cette raison, la langue préférée, le parcours d’apprentissage et le contexte culturel doivent être pris en compte dans l’interprétation des résultats. Évaluer une personne dans une langue qu’elle ne maîtrise pas pleinement peut conduire à des conclusions imprécises, surtout lorsque les résultats sont utilisés pour prendre des décisions importantes.
Nous n’avons pas plusieurs personnalités, mais plusieurs façons d’être nous-mêmes
Parler différentes langues ne crée pas des personnalités complètement séparées. Cependant, chaque langue peut donner accès à différentes parties de notre expérience.
Une langue peut nous rapprocher de l’enfance et de la famille. Une autre peut être associée à l’indépendance, au travail, aux voyages ou à une relation importante. L’une peut rendre les émotions plus intenses ; une autre peut offrir la distance nécessaire pour pouvoir en parler.
Les différences que nous ressentons ne signifient pas qu’une des versions est fausse. Toutes font partie de la même personne.
Le langage n’est pas seulement une manière d’exprimer ce que nous sommes. Il est aussi l’un des contextes à travers lesquels nous construisons, rappelons et comprenons notre propre histoire.
Peut-être que la question la plus utile n’est donc pas « laquelle de ces versions est vraiment moi ? », mais plutôt : « que me permet chaque langue de sentir, de penser et de dire ? »
Références
Costa, A., Foucart, A., Arnon, I., Aparici, M., & Apesteguia, J. (2014). Piensa twice: On the foreign language effect in decision making. Cognition, 130(2), 236–254.
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Wilson Ferreira Santos é psicólogo, inscrito na Ordem dos Psicólogos Portugueses com o n.º 25219.
Estes textos acompanham uma prática clínica centrada numa leitura cuidadosa e humana da experiência psicológica.
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