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Somos pessoas diferentes quando falamos outra língua?

Duas irmãs lado a lado num retrato de Théodore Chassériau
Théodore Chassériau, As Duas Irmãs (1843). Wikimedia Commons.

Quem fala mais do que uma língua poderá já ter sentido que não se expressa exatamente da mesma forma em todas elas.

Em português, uma pessoa pode sentir-se mais reservada, cuidadosa ou emocional. Em inglês, talvez fale de forma mais direta, descontraída ou confiante. Certas palavras surgem naturalmente numa língua, mas parecem artificiais quando são traduzidas. Algumas experiências são mais fáceis de contar numa língua estrangeira, enquanto outras parecem só fazer sentido na língua materna.

Será que mudamos de personalidade quando falamos outra língua?

Não propriamente. Continuamos a ser a mesma pessoa. No entanto, cada língua pode ativar diferentes memórias, emoções, referências culturais e formas de nos relacionarmos com os outros. A investigação encontra mudanças no modo como algumas pessoas se descrevem e, em certas situações, no modo como se comportam. Estas mudanças dependem também do interlocutor, do contexto e das culturas com que a pessoa se identifica: são variações na expressão da personalidade, não o aparecimento de uma personalidade nova.[1][2][3]

A língua não serve apenas para transmitir informação

É comum pensarmos na língua como um instrumento: temos uma ideia, escolhemos palavras e transmitimo-la a outra pessoa.

Na realidade, a relação entre linguagem e pensamento é mais complexa. A língua que utilizamos pode orientar aquilo em que prestamos atenção, a maneira como agrupamos certas experiências e a forma como descrevemos aquilo que sentimos. Isso não significa que determine o que somos capazes de pensar: os seus efeitos tendem a ser flexíveis e dependentes da tarefa e do contexto.[4]

Existem conceitos que têm uma tradução direta, mas há outros que perdem parte do significado quando passam de uma língua para outra. Uma palavra pode ter associações culturais, emocionais e pessoais que não estão presentes no seu equivalente.

Por exemplo, dizer “saudade” não corresponde exatamente a dizer “I miss you” ou “nostalgie”. Isto não quer dizer que só quem fala português possa sentir saudade. Significa que as línguas agrupam e tornam salientes nuances emocionais de maneiras parcialmente diferentes. Um estudo realizado em milhares de línguas encontrou simultaneamente variação cultural e estruturas comuns na forma como os conceitos emocionais se relacionam.[5]

Assim, aprender outra língua não significa apenas aprender palavras diferentes para designar as mesmas coisas. Pode também dar-nos novas formas de distinguir, comunicar e organizar aspetos da experiência.

Cada língua está ligada a uma história diferente

As línguas que falamos não são aprendidas todas no mesmo momento nem nas mesmas circunstâncias.

A língua materna costuma estar ligada à infância, à família, à escola, às primeiras relações e às primeiras experiências emocionais. Uma segunda língua pode ter sido aprendida durante a adolescência ou idade adulta, através de viagens, estudos, trabalho, filmes, música ou relações com pessoas de outros países.

Cada língua vai, assim, ficando associada a contextos diferentes.

Uma pessoa que aprendeu inglês através de viagens, amizades internacionais e experiências positivas poderá associá-lo a maior liberdade e espontaneidade. Em contraste, a língua materna poderá estar mais ligada às expectativas familiares, às responsabilidades e à forma como aprendeu que deveria comportar-se.

Também pode acontecer o contrário. Para quem vive num país estrangeiro, a segunda língua pode estar associada ao trabalho, à burocracia ou à sensação de não conseguir expressar-se com toda a precisão. A língua materna poderá então representar maior segurança, intimidade e pertença.

Não é apenas a estrutura da língua que produz estas diferenças. É também a história vivida através dela.[1][2][3]

Podemos parecer mais extrovertidos noutra língua

Algumas pessoas relatam sentir-se mais confiantes, sociáveis ou diretas quando falam uma língua estrangeira.

Isto não significa necessariamente que tenham desenvolvido uma nova personalidade. Pode significar que a segunda língua está associada a contextos nos quais aprenderam a comportar-se de outra maneira.

A cultura também influencia aquilo que é considerado uma forma adequada de comunicar. Porém, nenhuma cultura é inteiramente “direta” ou “reservada”: há diferenças importantes entre pessoas e situações dentro da mesma comunidade.

Quando falamos outra língua, podemos adaptar-nos, mesmo sem perceber, às normas sociais que lhe associamos e à pessoa com quem estamos a falar. Podem mudar o tom de voz, os gestos, o sentido de humor e a distância que mantemos em relação aos outros.[3]

Além disso, falar numa língua estrangeira pode dar uma sensação de liberdade. Certas frases parecem menos embaraçosas porque estão menos ligadas às regras e expectativas interiorizadas desde a infância. Num conjunto recente de estudos, pessoas bilingues preferiram frequentemente uma língua estrangeira para falar de assuntos embaraçosos, antecipando menos consequências emocionais e interpessoais.[6]

Por essa razão, alguém pode sentir-se mais espontâneo em inglês e mais contido em português, ou exatamente o contrário. O domínio de cada língua, a identidade cultural, o interlocutor e a história vivida em cada contexto podem fazer diferença. Ser bilingue, por si só, também não significa identificar-se igualmente com duas culturas.

As emoções podem ter intensidades diferentes

A primeira língua costuma ter uma ligação emocional particularmente forte, mas não é necessariamente a língua emocionalmente mais próxima em todas as fases da vida.

Foi nela que muitas pessoas ouviram as primeiras palavras de afeto, conforto, crítica, zanga ou medo. As palavras não foram aprendidas apenas através de definições, mas também através de situações emocionalmente marcantes.

Por isso, determinadas expressões podem provocar uma reação mais intensa quando são ouvidas ou pronunciadas na primeira língua. Uma frase de afeto pode parecer mais íntima e uma crítica mais dolorosa. As memórias também tendem a ficar mais acessíveis quando a língua usada para as recordar coincide com a língua do contexto em que foram vividas.[1][2][7]

Uma língua aprendida mais tarde pode criar maior distância emocional. Isso poderá ajudar algumas pessoas a falar sobre acontecimentos difíceis, constrangedores ou dolorosos. Para outras, porém, é precisamente nessa língua que encontram as palavras mais próximas do que sentem.

Contar uma experiência traumática numa segunda língua, por exemplo, pode parecer menos intenso do que contá-la na primeira. Esta distância pode facilitar a comunicação, mas não acontece com todas as pessoas. A segunda língua pode tornar-se profundamente emocional quando está ligada a relações importantes, à migração ou a uma parte central da vida, e a mudança de língua não deve ser interpretada automaticamente como proteção ou evitamento.[8]

Isto não significa que aquilo que é dito seja menos verdadeiro. Significa apenas que a língua utilizada pode alterar a proximidade emocional com a experiência.

Pensamos de forma diferente numa língua estrangeira?

A investigação sugere que utilizar uma língua estrangeira pode influenciar alguns processos de decisão.

Uma língua que dominamos menos pode tornar a leitura e a resposta mais demoradas. Mas demorar mais tempo não significa necessariamente pensar de forma mais cuidadosa.

Este fenómeno é por vezes designado por “efeito da língua estrangeira”. Em alguns estudos, os participantes tomaram decisões diferentes quando os problemas eram apresentados numa segunda língua. Uma análise conjunta encontrou efeitos em certas tarefas morais e de risco, mas também mostrou que variam conforme o tipo de decisão, o domínio da língua e a forma como a tarefa é apresentada.[9]

Isto não significa que pensar numa língua estrangeira seja sempre mais racional ou mais correto. Um menor domínio linguístico também pode dificultar a compreensão de informações complexas, limitar o vocabulário disponível e aumentar o esforço mental.

A influência da língua depende de vários fatores: o nível de fluência, a idade em que foi aprendida, o contexto em que é utilizada e a ligação emocional que a pessoa desenvolveu com ela.

A língua escolhida numa consulta de psicologia

Estas diferenças tornam-se especialmente relevantes numa consulta de psicologia.

A psicoterapia depende, em grande parte, da capacidade de colocar em palavras experiências internas. É através da linguagem que se descrevem emoções, pensamentos, memórias, relações e dificuldades que, por vezes, nunca tinham sido partilhadas.

Algumas pessoas preferem realizar as consultas na sua língua materna porque encontram nela maior precisão emocional. Conseguem explicar melhor aquilo que sentem e aceder mais facilmente a memórias antigas.

Outras preferem falar numa segunda língua. A distância emocional que por vezes sentem nessa língua pode ajudá-las a abordar assuntos que seriam demasiado intensos, embaraçosos ou dolorosos na primeira língua. Também pode acontecer que a segunda língua lhes seja emocionalmente mais próxima.[10][11]

Também é possível que a preferência mude consoante o tema. Uma pessoa pode falar em inglês sobre o trabalho, por ser a língua que utiliza profissionalmente, e passar para português ao recordar uma situação familiar. Certas palavras podem surgir apenas numa língua porque é nela que melhor representam a experiência.

Esta mudança não precisa de ser vista como um obstáculo. Pode fornecer informação sobre a experiência da pessoa, mas também pode ser apenas a forma mais fácil de encontrar as palavras. A investigação nesta área ainda se baseia sobretudo em estudos qualitativos e amostras pequenas; importa, por isso, explorar o significado da escolha com cada pessoa, sem presumir que uma língua é sempre mais autêntica ou que a mudança representa evitamento.[10][11][12]

Na minha prática clínica, disponibilizo consultas de psicologia em português e em inglês. A possibilidade de escolher a língua em que a pessoa se sente mais confortável pode facilitar a comunicação e permitir que o acompanhamento respeite melhor a sua história linguística, cultural e emocional.

Mais do que procurar uma tradução perfeita de cada frase, é importante criar um espaço em que a pessoa possa comunicar com autenticidade. Em alguns momentos, isso poderá significar utilizar uma língua de forma predominante. Noutros, poderá envolver alternar entre línguas.

A língua também deve ser considerada na avaliação psicológica

A questão torna-se igualmente importante quando são aplicados testes e instrumentos de avaliação psicológica.

Uma pessoa pode conversar fluentemente numa segunda língua e, ainda assim, ter mais dificuldade em compreender expressões abstratas, vocabulário emocional ou instruções complexas. O desempenho numa tarefa pode, por isso, refletir não apenas as suas capacidades psicológicas, mas também o domínio da língua utilizada.

As traduções de instrumentos também não são completamente neutras. Uma pergunta que parece simples numa língua pode adquirir outro significado cultural ou emocional noutra.

Por esse motivo, a língua preferida não deve ser confundida automaticamente com a língua dominante. O percurso de aprendizagem, a escolarização, o uso atual, o contexto cultural e até a variedade regional da língua podem ser relevantes. Além disso, uma tradução correta não garante, por si só, que o instrumento tenha normas, validade e fiabilidade adequadas para aquela população ou que os resultados possam ser comparados diretamente entre versões.[13][14]

Não temos várias personalidades, mas várias formas de sermos nós próprios

Falar línguas diferentes não cria personalidades completamente separadas. Contudo, cada língua pode dar acesso a diferentes partes da nossa experiência.

Uma língua pode aproximar-nos da infância e da família. Outra pode estar associada à independência, ao trabalho, às viagens ou a uma relação importante. Em certos momentos, uma pode tornar as emoções mais intensas; noutras circunstâncias, pode ser essa mesma língua que nos ajuda a falar sobre elas.

As diferenças que sentimos não significam que uma das versões seja falsa. Todas fazem parte da mesma pessoa.

A linguagem não é apenas uma forma de expressar aquilo que somos. É também um dos contextos através dos quais construímos, recordamos e compreendemos a nossa própria história.

Talvez, por isso, a pergunta mais útil não seja “qual destas versões é realmente a minha?”, mas sim: “o que é que cada língua me permite sentir, pensar e dizer?”

Revisto a 6 de outubro de 2026.

Referências

  1. Dewaele, J.-M. (2010). Emotions in multiple languages. Palgrave Macmillan.
  2. Marian, V., & Kaushanskaya, M. (2004). Self-construal and emotion in bicultural bilinguals. Journal of Memory and Language, 51(2), 190–201.
  3. Chen, S. X., & Bond, M. H. (2010). Two languages, two personalities? Examining language effects on the expression of personality in a bilingual context. Personality and Social Psychology Bulletin, 36(11), 1514–1528.
  4. Athanasopoulos, P., & Casaponsa, A. (2020). The Whorfian brain: Neuroscientific approaches to linguistic relativity. Cognitive Neuropsychology, 37(5–6), 393–412.
  5. Jackson, J. C., et al. (2019). Emotion semantics show both cultural variation and universal structure. Science, 366(6472), 1517–1522.
  6. Lau, B. K. Y., Vazquez-Olivieri, V., Guang, C., & Keysar, B. (2026). Embarrassment guides language choice. Cognition, 268, 106355.
  7. Marian, V., & Neisser, U. (2000). Language-dependent recall of autobiographical memories. Journal of Experimental Psychology: General, 129(3), 361–368.
  8. Pavlenko, A. (2005). Emotions and multilingualism. Cambridge University Press.
  9. Del Maschio, N., Crespi, F., Peressotti, F., Abutalebi, J., & Sulpizio, S. (2022). Decision-making depends on language: A meta-analysis of the foreign language effect. Bilingualism: Language and Cognition, 25(4), 617–630.
  10. Verkerk, L., Fuller, J. M., Huiskes, M., & Schüppert, A. (2023). Expression and interpretation of emotions in multilingual psychotherapy: A literature review. Counselling and Psychotherapy Research, 23(3), 617–626.
  11. Verkerk, L., Fuller, J. M., Huiskes, M., & Schüppert, A. (2024). “My recovery is in English”: Clients’ language choices in multilingual psychotherapy. Counselling and Psychotherapy Research, 24(3), 949–961.
  12. Rolland, L., Dewaele, J.-M., & Costa, B. (2017). Multilingualism and psychotherapy: Exploring multilingual clients’ experiences of language practices in psychotherapy. International Journal of Multilingualism, 14(1), 69–85.
  13. International Test Commission. (2017). The ITC guidelines for translating and adapting tests (2nd ed.).
  14. American Psychological Association. (2020). Guidelines for psychological assessment and evaluation.

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Wilson Ferreira Santos é psicólogo, inscrito na Ordem dos Psicólogos Portugueses com o n.º 25219.

Estes textos acompanham uma prática clínica centrada numa leitura cuidadosa e humana da experiência psicológica.