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Nota

Somos pessoas diferentes quando falamos outra língua?

Letras suspensas numa instalação luminosa, evocando linguagem e comunicação

Quem fala mais do que uma língua poderá já ter sentido que não se expressa exatamente da mesma forma em todas elas.

Em português, uma pessoa pode sentir-se mais reservada, cuidadosa ou emocional. Em inglês, talvez fale de forma mais direta, descontraída ou confiante. Certas palavras surgem naturalmente numa língua, mas parecem artificiais quando são traduzidas. Algumas experiências são mais fáceis de contar numa língua estrangeira, enquanto outras parecem só fazer sentido na língua materna.

Será que mudamos de personalidade quando falamos outra língua?

Não propriamente. Continuamos a ser a mesma pessoa. No entanto, cada língua pode ativar diferentes memórias, emoções, referências culturais e formas de nos relacionarmos com os outros. Por isso, falar outra língua pode fazer emergir uma versão ligeiramente diferente de nós próprios.

A língua não serve apenas para transmitir informação

É comum pensarmos na língua como um instrumento: temos uma ideia, escolhemos palavras e transmitimo-la a outra pessoa.

Na realidade, a relação entre linguagem e pensamento é mais complexa. A língua que utilizamos pode influenciar aquilo em que prestamos atenção, a maneira como organizamos uma experiência e até a forma como descrevemos aquilo que sentimos.

Existem conceitos que têm uma tradução direta, mas há outros que perdem parte do significado quando passam de uma língua para outra. Uma palavra pode ter associações culturais, emocionais e pessoais que não estão presentes no seu equivalente.

Por exemplo, dizer “saudade” não corresponde exatamente a dizer “I miss you” ou “nostalgie”. As expressões podem aproximar-se, mas não ocupam necessariamente o mesmo lugar na experiência emocional de quem as utiliza.

Assim, aprender outra língua não significa apenas aprender palavras diferentes para designar as mesmas coisas. Significa também entrar em contacto com outras formas de interpretar e organizar a realidade.

Cada língua está ligada a uma história diferente

As línguas que falamos não são aprendidas todas no mesmo momento nem nas mesmas circunstâncias.

A língua materna costuma estar ligada à infância, à família, à escola, às primeiras relações e às primeiras experiências emocionais. Uma segunda língua pode ter sido aprendida durante a adolescência ou idade adulta, através de viagens, estudos, trabalho, filmes, música ou relações com pessoas de outros países.

Cada língua vai, assim, ficando associada a contextos diferentes.

Uma pessoa que aprendeu inglês através de viagens, amizades internacionais e experiências positivas poderá associá-lo a maior liberdade e espontaneidade. Em contraste, a língua materna poderá estar mais ligada às expectativas familiares, às responsabilidades e à forma como aprendeu que deveria comportar-se.

Também pode acontecer o contrário. Para quem vive num país estrangeiro, a segunda língua pode estar associada ao trabalho, à burocracia ou à sensação de não conseguir expressar-se com toda a precisão. A língua materna poderá então representar maior segurança, intimidade e pertença.

Não é apenas a estrutura da língua que produz estas diferenças. É também a história vivida através dela.

Podemos parecer mais extrovertidos noutra língua

Algumas pessoas relatam sentir-se mais confiantes, sociáveis ou diretas quando falam uma língua estrangeira.

Isto não significa necessariamente que tenham desenvolvido uma nova personalidade. Pode significar que a segunda língua está associada a contextos nos quais aprenderam a comportar-se de outra maneira.

A cultura também influencia aquilo que é considerado uma forma adequada de comunicar. Algumas culturas valorizam uma comunicação mais direta e informal. Outras dão maior importância à prudência, à hierarquia ou à escolha cuidadosa das palavras.

Quando falamos outra língua, podemos adaptar-nos, mesmo sem perceber, às normas sociais que lhe associamos. Mudam o tom de voz, os gestos, o sentido de humor e a distância que mantemos em relação às outras pessoas.

Além disso, falar numa língua estrangeira pode dar uma sensação de liberdade. Certas frases parecem menos embaraçosas porque não estão tão ligadas às regras e expectativas que interiorizámos desde a infância. É como se existisse alguma distância entre aquilo que dizemos e a forma como habitualmente nos avaliamos.

Por essa razão, alguém pode sentir-se mais espontâneo em inglês e mais contido em português, ou exatamente o contrário.

As emoções podem ter intensidades diferentes

A língua materna costuma ter uma ligação emocional particularmente forte.

Foi nela que muitas pessoas ouviram as primeiras palavras de afeto, conforto, crítica, zanga ou medo. As palavras não foram aprendidas apenas através de definições, mas também através de situações emocionalmente marcantes.

Por isso, determinadas expressões podem provocar uma reação mais intensa quando são ouvidas ou pronunciadas na língua materna. Uma frase de afeto pode parecer mais íntima. Uma crítica pode ser sentida de forma mais dolorosa. Uma recordação poderá tornar-se mais vívida quando é contada na língua em que foi originalmente vivida.

Uma língua aprendida mais tarde pode criar maior distância emocional. Isso poderá ajudar algumas pessoas a falar sobre acontecimentos difíceis, constrangedores ou dolorosos.

Contar uma experiência traumática numa segunda língua, por exemplo, pode parecer menos intenso do que contá-la na língua materna. Esta distância pode facilitar a comunicação, mas também pode funcionar como uma forma de proteção emocional.

Isto não significa que aquilo que é dito seja menos verdadeiro. Significa apenas que a língua utilizada pode alterar a proximidade emocional com a experiência.

Pensamos de forma diferente numa língua estrangeira?

A investigação sugere que utilizar uma língua estrangeira pode influenciar alguns processos de decisão.

Quando pensamos numa língua que dominamos menos, o raciocínio tende a ser mais lento e deliberado. Podemos prestar mais atenção às palavras, analisar melhor a estrutura das frases e afastar-nos parcialmente da reação emocional imediata.

Este fenómeno é por vezes designado por “efeito da língua estrangeira”. Em alguns estudos, os participantes apresentaram decisões menos influenciadas por determinados enviesamentos quando os problemas eram apresentados numa segunda língua.

No entanto, isto não significa que pensar numa língua estrangeira seja sempre mais racional ou mais correto. Um menor domínio linguístico também pode dificultar a compreensão de informações complexas, limitar o vocabulário disponível e aumentar o esforço mental.

A influência da língua depende de vários fatores: o nível de fluência, a idade em que foi aprendida, o contexto em que é utilizada e a ligação emocional que a pessoa desenvolveu com ela.

A língua escolhida numa consulta de psicologia

Estas diferenças tornam-se especialmente relevantes numa consulta de psicologia.

A psicoterapia depende, em grande parte, da capacidade de colocar em palavras experiências internas. É através da linguagem que se descrevem emoções, pensamentos, memórias, relações e dificuldades que, por vezes, nunca tinham sido partilhadas.

Algumas pessoas preferem realizar as consultas na sua língua materna porque encontram nela maior precisão emocional. Conseguem explicar melhor aquilo que sentem e aceder mais facilmente a memórias antigas.

Outras preferem falar numa segunda língua. A distância emocional proporcionada por essa língua pode ajudá-las a abordar assuntos que seriam demasiado intensos, embaraçosos ou dolorosos na língua materna.

Também é possível que a preferência mude consoante o tema. Uma pessoa pode falar em inglês sobre o trabalho, por ser a língua que utiliza profissionalmente, e passar para português ao recordar uma situação familiar. Certas palavras podem surgir apenas numa língua porque é nela que melhor representam a experiência.

Esta mudança não precisa de ser vista como um obstáculo. Pode, pelo contrário, fornecer informação importante sobre a maneira como a pessoa organiza emocionalmente diferentes partes da sua vida.

Na minha prática clínica, disponibilizo consultas de psicologia em português e em inglês. A possibilidade de escolher a língua em que a pessoa se sente mais confortável pode facilitar a comunicação e permitir que o acompanhamento respeite melhor a sua história linguística, cultural e emocional.

Pretendo, futuramente, disponibilizar também consultas em francês, alargando esta possibilidade a pessoas que se expressem mais facilmente nessa língua.

Mais do que procurar uma tradução perfeita de cada frase, é importante criar um espaço em que a pessoa possa comunicar com autenticidade. Em alguns momentos, isso poderá significar utilizar uma língua de forma predominante. Noutros, poderá envolver alternar entre línguas.

A língua também deve ser considerada na avaliação psicológica

A questão torna-se igualmente importante quando são aplicados testes e instrumentos de avaliação psicológica.

Uma pessoa pode conversar fluentemente numa segunda língua e, ainda assim, ter mais dificuldade em compreender expressões abstratas, vocabulário emocional ou instruções complexas. O desempenho numa tarefa pode, por isso, refletir não apenas as suas capacidades psicológicas, mas também o domínio da língua utilizada.

As traduções de instrumentos também não são completamente neutras. Uma pergunta que parece simples numa língua pode adquirir outro significado cultural ou emocional noutra.

Por esse motivo, a língua preferida, o percurso de aprendizagem e o contexto cultural devem ser considerados na interpretação dos resultados. Avaliar uma pessoa numa língua que não domina plenamente pode levar a conclusões imprecisas, sobretudo quando os resultados são analisados sem ter em conta o seu percurso linguístico.

Não temos várias personalidades, mas várias formas de sermos nós próprios

Falar línguas diferentes não cria personalidades completamente separadas. Contudo, cada língua pode dar acesso a diferentes partes da nossa experiência.

Uma língua pode aproximar-nos da infância e da família. Outra pode estar associada à independência, ao trabalho, às viagens ou a uma relação importante. Uma pode tornar as emoções mais intensas; outra pode proporcionar a distância necessária para conseguirmos falar sobre elas.

As diferenças que sentimos não significam que uma das versões seja falsa. Todas fazem parte da mesma pessoa.

A linguagem não é apenas uma forma de expressar aquilo que somos. É também um dos contextos através dos quais construímos, recordamos e compreendemos a nossa própria história.

Talvez, por isso, a pergunta mais útil não seja “qual destas versões é realmente a minha?”, mas sim: “o que é que cada língua me permite sentir, pensar e dizer?”

Referências

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Wilson Ferreira Santos é psicólogo, inscrito na Ordem dos Psicólogos Portugueses com o n.º 25219.

Estes textos acompanham uma prática clínica centrada numa leitura cuidadosa e humana da experiência psicológica.

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