A inteligência artificial entrou muito rapidamente no nosso dia a dia. Usamo-la para procurar informação, estudar, trabalhar, escrever ou simplesmente esclarecer uma dúvida. Era provavelmente inevitável que começasse também a ser utilizada para falar sobre problemas pessoais.

Para algumas pessoas, o ChatGPT e outros chatbots tornaram-se um espaço onde podem falar sobre ansiedade, relações, solidão, dificuldades no trabalho ou simplesmente sobre um dia que correu mal. É fácil perceber parte do apelo: estão sempre disponíveis, respondem imediatamente e podemos dizer-lhes coisas que talvez tivéssemos alguma dificuldade em dizer a outra pessoa.

Mas o que acontece quando começamos a usar estas ferramentas como se fossem um psicólogo?

A questão tem-se tornado suficientemente comum para chamar a atenção de investigadores e organizações de saúde. A American Psychological Association alertou para o crescimento da utilização de chatbots de inteligência artificial como apoio psicológico, sobretudo quando estes não foram criados ou avaliados para esse fim. Mais recentemente, a Organização Mundial da Saúde voltou a chamar a atenção para a necessidade de desenvolver e utilizar estas ferramentas de forma responsável na área da saúde mental.

A investigação que começa a surgir é interessante. Mas mostra também que é preciso distinguir coisas bastante diferentes.

Conversar com uma IA pode ajudar?

Em algumas situações, sim.

Escrever sobre aquilo que estamos a sentir pode, por si só, ajudar a organizar pensamentos. Uma IA pode fazer perguntas, explicar o que é a ansiedade, sugerir formas simples de relaxamento ou ajudar alguém a preparar aquilo que gostaria de abordar numa consulta.

Pode até ser mais fácil começar por escrever para uma máquina. Uma pessoa que tenha vergonha de determinado problema, por exemplo, pode sentir menos receio de julgamento. E alguém que esteja acordado às três da manhã não precisa de esperar pelo dia seguinte para obter uma resposta.

Isto não é necessariamente mau. O problema está em confundir a sensação de estarmos a ter uma boa conversa com o facto de estarmos a receber cuidados de saúde mental.

Os sistemas de IA atuais são particularmente bons a produzir linguagem convincente. Conseguem responder num tom empático, recordar aquilo que foi dito anteriormente e adaptar a resposta à pessoa que está a conversar com eles. Tudo isso pode criar uma experiência surpreendentemente próxima de uma conversa humana.

Só que parecer compreender e compreender clinicamente uma pessoa são coisas diferentes.

E a terapia com inteligência artificial funciona?

Aqui é importante fazer uma distinção.

Uma coisa é abrir o ChatGPT, Gemini ou outro chatbot generalista e pedir-lhe que seja nosso terapeuta. Outra bastante diferente é utilizar um sistema desenvolvido especificamente para intervir na saúde mental, construído com participação de profissionais e depois estudado em investigação clínica.

Algumas destas ferramentas têm apresentado resultados interessantes.

Um dos exemplos mais recentes é o Therabot, desenvolvido por investigadores do Dartmouth College. Num ensaio clínico publicado em 2025, pessoas com sintomas de depressão, ansiedade ou perturbações alimentares utilizaram este chatbot durante várias semanas. Os participantes apresentaram reduções importantes em alguns sintomas e muitos relataram ter desenvolvido uma relação de confiança com o sistema.

É um resultado que merece atenção. Mostra que a inteligência artificial poderá vir a ter um lugar nos cuidados de saúde mental.

Mas o estudo não mostrou que conversar com qualquer IA equivale a fazer psicoterapia. O Therabot foi criado precisamente para este objetivo, com intervenção de profissionais de saúde mental e mecanismos específicos de segurança. Além disso, como acontece frequentemente nesta área, ainda sabemos relativamente pouco sobre os efeitos da utilização prolongada destas ferramentas.

Outros estudos e revisões têm encontrado resultados positivos, sobretudo na ansiedade e depressão. Ainda assim, muitos trabalhos são pequenos, relativamente curtos e excluem pessoas com problemas mais graves.

Estamos, portanto, perante uma área promissora, mas ainda muito recente.

O problema de uma IA que está sempre de acordo connosco

Há uma dificuldade particular que merece atenção.

Quando alguém nos conta um problema, nem sempre a resposta mais útil é concordar com a interpretação que essa pessoa faz da situação.

Imagine alguém que está convencido de que todos os colegas de trabalho falam sobre si quando sai da sala. Um psicólogo não tem apenas de reconhecer que aquela experiência está a provocar sofrimento. Precisa também de perceber o que está a acontecer, explorar outras explicações e avaliar se aquela convicção pode fazer parte de um problema mais amplo.

Um chatbot pode não fazer esta distinção tão bem.

Os modelos de linguagem foram desenvolvidos para manter conversas úteis e agradáveis e podem tornar-se excessivamente concordantes com o utilizador. Isso é particularmente problemático perante ideias persecutórias, estados maníacos ou interpretações muito distorcidas da realidade.

Algo semelhante pode acontecer, de forma menos evidente, na ansiedade.

Uma pessoa preocupada com a saúde pode perguntar repetidamente se determinado sintoma é perigoso. Alguém inseguro numa relação pode procurar constantemente confirmação de que o companheiro não o vai abandonar. A resposta da IA pode tranquilizar durante alguns minutos. Mas, se sempre que surge a dúvida recorremos novamente ao chatbot, podemos acabar por alimentar o próprio ciclo de ansiedade.

Aquilo que nos faz sentir melhor no momento nem sempre é aquilo que nos ajuda a longo prazo.

E quando existe uma crise?

Este é provavelmente o limite mais importante.

Os chatbots atuais não respondem sempre de forma adequada perante situações de automutilação, ideação suicida, psicose, mania ou outros estados de grande vulnerabilidade.

Um estudo publicado em 2026 avaliou precisamente a forma como diferentes modelos de linguagem respondiam a situações de crise psicológica. Os resultados mostraram diferenças consideráveis entre sistemas e dificuldades sobretudo quando os sinais de risco eram menos explícitos.

Na vida real, é precisamente assim que muitas situações aparecem. Uma pessoa pode não escrever diretamente “quero suicidar-me”. Pode dizer que está cansada de tudo, que os outros ficariam melhor sem ela ou que já não vê qualquer saída.

Um profissional pode fazer perguntas adicionais, avaliar o risco e decidir que é necessário envolver outras pessoas ou serviços. Um chatbot pode interpretar mal aquilo que está a ler.

Por isso, perante uma situação de crise, a IA não deve ser o único apoio disponível.

Podemos criar uma relação com um chatbot?

Esta talvez seja uma das questões mais interessantes de toda esta discussão.

As pessoas criam relações com coisas que respondem socialmente. Damos nomes a objetos, falamos com animais e sentimos ligação a personagens que sabemos não existir. Não é particularmente surpreendente que possamos desenvolver algum tipo de ligação emocional com um sistema que conversa connosco, recorda aquilo que dissemos e responde de forma aparentemente interessada.

No estudo do Therabot, por exemplo, muitos participantes relataram uma relação com o chatbot comparável, em algumas medidas, à relação terapêutica observada nos cuidados tradicionais.

Isso pode ser útil. Sentirmo-nos compreendidos facilita a abertura e pode aumentar a vontade de continuar a utilizar uma intervenção.

Mas também levanta um problema novo.

Uma IA está disponível sempre que queremos. Não se cansa, não tem necessidades próprias, não se irrita e adapta grande parte da conversa a nós. As relações humanas não funcionam assim.

Se alguém começa progressivamente a preferir a relação com o chatbot às relações com outras pessoas, a utilizá-lo para tomar decisões ou a sentir que é a única entidade que realmente o compreende, vale a pena prestar atenção ao que está a acontecer.

A utilização que começou por diminuir a solidão pode, em alguns casos, acabar por facilitar o isolamento.

E os jovens?

Esta questão torna-se ainda mais importante entre adolescentes.

Um estudo publicado em 2026 na JAMA Pediatrics encontrou uma utilização considerável de chatbots para aconselhamento de saúde mental entre adolescentes e jovens adultos norte-americanos. Muitos disseram considerar as respostas úteis e nem todos tinham contado a outras pessoas que utilizavam IA desta forma.

Não podemos assumir que os mesmos números se aplicam a Portugal. Mas podemos retirar daqui uma informação importante: para alguns jovens, estas conversas já fazem parte da forma como procuram ajuda.

Proibir ou ridicularizar essa utilização provavelmente não resolve o problema. Pode ser mais útil perguntar o que procuram nesses sistemas, o que lhes dizem e se existe alguma coisa que sintam não conseguir contar a uma pessoa.

Se um adolescente sente que só consegue falar sobre determinado sofrimento com um chatbot, talvez a questão mais importante não seja o chatbot. É perceber por que razão não encontrou ainda uma pessoa com quem se sinta seguro para falar.

Uma conversa privada não é necessariamente confidencial

Há ainda outro aspeto que por vezes esquecemos quando conversamos com estas ferramentas.

É fácil sentir que uma conversa no telemóvel ou no computador é privada. Mas a confidencialidade de uma consulta de psicologia tem um enquadramento profissional, ético e legal que não é equivalente ao de uma conversa com uma plataforma tecnológica.

As políticas variam entre empresas e serviços e podem também mudar ao longo do tempo. Antes de escrever informação muito pessoal sobre saúde, sexualidade, relações, família, trabalho ou outras pessoas, convém perceber o que acontece a esses dados.

Uma boa regra é não fornecer mais informação identificável do que aquela que é necessária.

Então, para que pode ser útil?

Não precisamos de escolher entre considerar a IA uma ameaça ou tratá-la como um psicólogo disponível 24 horas por dia.

Há um espaço bastante grande entre essas duas posições.

Pode ser útil para perceber melhor um conceito psicológico, organizar aquilo que estamos a sentir, escrever um diário, preparar uma conversa difícil ou pensar em questões que queremos levar para uma consulta. Durante um processo terapêutico, algumas pessoas poderão também utilizá-la para recordar ou organizar aquilo que trabalharam.

O que já merece maior cautela é pedir a um chatbot que faça um diagnóstico, decidir alterar medicação com base naquilo que ele diz, utilizá-lo como única resposta perante uma crise ou entregar-lhe decisões importantes sobre a nossa vida.

Também pode ser útil fazermos uma pergunta simples a nós próprios: depois de conversar com a IA, estou mais capaz de voltar à minha vida ou sinto necessidade de continuar a conversar com ela?

Essa diferença pode dizer-nos bastante sobre a forma como a estamos a utilizar.

A IA vai substituir os psicólogos?

É difícil prever até onde chegarão estas tecnologias. É perfeitamente possível que ferramentas de inteligência artificial venham a ter um papel importante na saúde mental, incluindo na prevenção, acompanhamento de sintomas ou apoio entre consultas.

Isso não significa necessariamente substituir profissionais.

A psicoterapia envolve conhecimento técnico, mas envolve também uma relação entre duas pessoas. O psicólogo observa mudanças ao longo do tempo, percebe contradições, conhece o contexto da pessoa, faz perguntas que nem sempre são confortáveis e assume responsabilidade pelo trabalho que está a realizar.

Por vezes, parte do trabalho terapêutico acontece precisamente porque existe outra pessoa do outro lado.

A investigação sobre inteligência artificial e psicoterapia está ainda numa fase inicial. Há resultados suficientemente interessantes para não descartarmos estas ferramentas, mas também existem razões suficientes para não lhes atribuirmos capacidades que ainda não demonstraram.

Talvez a utilização mais interessante da IA na saúde mental venha a ser menos espetacular do que a ideia de um “psicólogo artificial”: ferramentas que ajudem pessoas e profissionais, tornem alguns recursos mais acessíveis e complementem aquilo que já fazemos.

Por enquanto, se uma conversa com IA ajuda alguém a perceber melhor o que sente ou até a dar o primeiro passo para procurar ajuda, pode ter cumprido uma função importante.

Só não devemos confundir esse primeiro passo com todo o caminho.

Perguntas frequentes

Posso usar o ChatGPT como psicólogo?
Pode utilizá-lo para falar sobre aquilo que sente, procurar informação ou organizar pensamentos. Mas o ChatGPT é um chatbot generalista e não substitui uma avaliação ou acompanhamento realizado por um profissional.

A terapia com IA funciona?
Algumas ferramentas desenvolvidas especificamente para saúde mental têm apresentado resultados promissores, sobretudo na ansiedade e depressão. Ainda existe pouca informação sobre utilização a longo prazo e estes resultados não podem ser generalizados a qualquer chatbot.

É perigoso falar dos meus problemas com uma IA?
Não necessariamente. Depende do problema e da forma como utiliza a ferramenta. O risco aumenta quando a IA se torna a única fonte de apoio, é utilizada numa situação de crise ou começa a substituir relações e cuidados necessários.

Posso usar IA enquanto faço psicoterapia?
Em princípio, sim. Pode servir, por exemplo, para organizar ideias ou questões entre consultas. Se a utilização tiver um papel importante na forma como lida com as suas dificuldades, pode também ser útil falar sobre isso com o psicólogo.

Quando devo procurar ajuda de uma pessoa?
Quando o sofrimento é intenso ou persistente, interfere significativamente com a vida quotidiana, existe perda de controlo ou surgem pensamentos de automutilação ou suicídio, alterações importantes da perceção da realidade ou outros sinais de crise. Nessas situações, uma conversa com IA não deve substituir ajuda profissional ou serviços de emergência.

Referências

American Psychological Association. (2025). Health advisory: Use of generative AI chatbots and wellness applications for mental health. APA

American Psychological Association. (2026). Your patients are using AI. Here’s how to talk with them about it. APA

Arnaiz-Rodriguez, A., et al. (2026). Between Help and Harm: An Evaluation Study of Mental Health Crisis Handling by Large Language Models. JMIR Mental Health, 13, e88435. JMIR Mental Health

Heinz, M. V., et al. (2025). Randomized Trial of a Generative AI Chatbot for Mental Health Treatment. NEJM AI, 2(4). NEJM AI

McBain, R. K., et al. (2026). AI Chatbot Use and Disclosure for Mental Health Among US Adolescents and Young Adults. JAMA Pediatrics. JAMA Pediatrics

World Health Organization. (2026). Towards responsible AI for mental health and well-being: experts chart a way forward. WHO