Início
Psicologia
Sobre Perguntas Blog Contactar Marcações
Voltar a notas e artigos

Nota

5 formas de lidar com a ansiedade mediática

Pintura de Vincent van Gogh: mulher a ler um livro
Imagem: Vincent van Gogh, Une liseuse de romans, 1888 / Wikimedia Commons, domínio público.

Assistimos, hoje em dia, a um fluxo constante de notícias sobre o estado do mundo. Para onde quer que nos viremos, pode parecer que tudo está errado, e isso pode alimentar uma visão pessimista e um sentimento de ansiedade.

Sobrecarga de informação

Para além dos meios tradicionais, as redes sociais, os vídeos curtos e as notificações fazem com que as notícias nos cheguem mesmo quando não estamos à procura delas. O fluxo não tem um princípio nem um fim claros: uma atualização conduz à seguinte e a mesma imagem pode reaparecer em vários canais, por vezes sem contexto. Nem todos reagimos da mesma maneira. Em Portugal, 37% das pessoas inquiridas em 2026 disseram evitar as notícias algumas vezes ou frequentemente.[1] Este afastamento pode ser uma forma de regular a sobrecarga, embora também possa deixar algumas pessoas menos informadas sobre assuntos relevantes.

A cobertura noticiosa e as publicações nas redes sociais tendem ainda a dar visibilidade ao que é novo, conflitual ou dramático. Num grande estudo de campo que comparou títulos diferentes para a mesma notícia, cada palavra negativa adicional aumentou, em média, a probabilidade de clique; emoções negativas distintas não tiveram todas o mesmo efeito.[2] Isto mostra que a linguagem negativa pode captar atenção, mas não significa que todas as notícias sejam negativas nem que exista uma simples preferência universal por "más notícias".

Ansiedade mediática não é um diagnóstico

A expressão ansiedade mediática descreve aqui o stress, a preocupação ou o estado de alerta associados ao contacto com notícias e conteúdos mediáticos. Não corresponde a um diagnóstico clínico. Sentir medo ou tristeza perante uma guerra, uma catástrofe ou uma crise política pode ser uma resposta humana compreensível. A questão é perceber a intensidade, a duração e o impacto: o contacto com as notícias informa e ajuda a agir, ou mantém a pessoa num estado de ameaça sem acrescentar compreensão?

Num inquérito da American Psychological Association realizado nos Estados Unidos em 2017, 56% dos adultos disseram que acompanhar as notícias lhes causava stress.[3] Um estudo experimental mostrou também que ver um boletim composto por notícias negativas podia aumentar momentaneamente a ansiedade e a tristeza, assim como a tendência para imaginar o pior acerca de preocupações pessoais.[4] Este efeito imediato não significa, por si só, que ver notícias cause uma perturbação de ansiedade.

A presença dos meios de comunicação na vida quotidiana também não é uma preocupação nova. Nos anos 1920, Cora May White, de Minneapolis, pediu o divórcio alegando que o marido prestava mais atenção à rádio do que a ela.[5] A anedota é de outra época, mas lembra-nos que cada nova tecnologia pode ocupar espaço psicológico e relacional. A diferença atual está na disponibilidade contínua, na personalização e na facilidade com que imagens e alertas nos acompanham ao longo do dia.

Quando informar-se se transforma num ciclo

Consultar notícias várias vezes não é necessariamente um problema. O sinal mais útil é a função que esse comportamento cumpre. Algumas pessoas procuram uma informação concreta e param quando a encontram; outras regressam repetidamente para aliviar a incerteza, mas obtêm apenas um alívio breve e sentem necessidade de voltar a verificar. Quando a absorção pelas notícias interfere com o sono, a concentração, o trabalho ou os relacionamentos, fala-se por vezes em consumo problemático de notícias. A investigação encontra uma associação com pior bem-estar psicológico e físico, mas este conceito é recente e não constitui um diagnóstico reconhecido.[6]

O estado de espírito também influencia aquilo que procuramos. Estudos sobre navegação na internet sugerem um ciclo de duas direções: um humor mais negativo favorece a escolha de conteúdos mais negativos e essa exposição pode, por sua vez, piorar o humor.[7] Num estudo diário realizado durante a pandemia, numa amostra específica de pessoas de minorias sexuais e de género, a exposição a mais notícias sobre a COVID-19 associou-se a pior afeto e houve indícios de relações bidirecionais entre exposição e sofrimento.[8] Estes resultados não permitem concluir que qualquer leitura de notícias faça mal; mostram antes que conteúdo, repetição, contexto e vulnerabilidade pessoal importam.

Nem toda a exposição tem o mesmo peso

Ler uma explicação contextualizada não é psicologicamente igual a ver repetidamente imagens gráficas, vídeos em reprodução automática ou transmissões em direto de um acontecimento traumático. A investigação sobre atentados, guerras e violência coletiva associa a exposição extensa a imagens gráficas a mais sintomas de stress, sobretudo quando o contacto é repetido.[9] Isto não quer dizer que as pessoas devam ignorar acontecimentos graves, mas que podem informar-se sem se exporem continuamente às imagens mais perturbadoras.

Também importa a proximidade psicológica. Uma notícia pode tocar diretamente numa experiência passada, envolver familiares, ameaçar uma comunidade a que se pertence ou deixar a pessoa sem qualquer possibilidade de ação. Nesses momentos, limitar a exposição não é indiferença. Pode ser uma forma de conservar capacidade para pensar, cuidar de si e responder ao que realmente está ao seu alcance.

Gestão do stress

Informar-se continua a ser importante. O objetivo não é construir uma bolha sem más notícias, mas escolher uma relação mais deliberada com elas. Se o consumo de notícias está a interferir com o bem-estar ou com os relacionamentos, podem ser úteis algumas mudanças simples.

5 formas de lidar com a ansiedade mediática:

  • Definir momentos e fontes: escolher uma ou duas fontes credíveis e horários concretos para se informar, em vez de consultar continuamente vários canais. Desligar alertas que não sejam verdadeiramente necessários ajuda a devolver intenção ao gesto de abrir as notícias.
  • Perguntar o que procura: antes de voltar a atualizar a página, perceber se precisa de informação nova, de orientação para agir ou apenas de reduzir a incerteza. Quando já não existe nada de útil a acrescentar, continuar a verificar raramente traz a segurança procurada.
  • Limitar imagens repetidas: desativar a reprodução automática, evitar rever vídeos gráficos e preferir texto ou áudio quando as imagens o deixam particularmente perturbado. É possível compreender a gravidade de um acontecimento sem assistir repetidamente ao seu momento mais violento.
  • Procurar contexto e respostas: combinar a atualização imediata com análises mais lentas e com jornalismo que examine respostas possíveis, sem negar os problemas. A investigação sobre jornalismo construtivo encontra efeitos relativamente consistentes nas emoções, embora outros benefícios ainda sejam menos claros.[10]
  • Reconhecer quando precisa de apoio: retomar rotinas, conversas, descanso e atividades fora dos ecrãs. Se o impacto persistir, afetar o sono ou o funcionamento diário, ou se as notícias reativarem uma experiência traumática, o apoio de um profissional de saúde mental pode ser benéfico.

Estar informado e proteger a saúde mental não são objetivos incompatíveis. A informação é mais útil quando aumenta a compreensão ou permite escolher uma ação; torna-se menos útil quando apenas prolonga o estado de alarme.

Revisto a 27 de setembro de 2026.

Referências

  1. Reuters Institute for the Study of Journalism. (2026). Digital News Report 2026: Portugal.
  2. Robertson, C. E., Pröllochs, N., Schwarzenegger, K., et al. (2023). Negativity drives online news consumption. Nature Human Behaviour, 7, 812–822.
  3. American Psychological Association. (2017). Stress in America: The state of our nation.
  4. Johnston, W. M., & Davey, G. C. L. (1997). The psychological impact of negative TV news bulletins: The catastrophizing of personal worries. British Journal of Psychology, 88(1), 85–91.
  5. Greymouth Evening Star. (1924). Relato do pedido de divórcio de Cora May White.
  6. McLaughlin, B., Gotlieb, M. R., & Mills, D. J. (2025). Problematic news consumption and its relationship to mental and physical health: A replication study. Health Communication, 40(10), 2016–2024.
  7. Kelly, C. A., & Sharot, T. (2025). Web-browsing patterns reflect and shape mood and mental health. Nature Human Behaviour, 9, 133–146.
  8. Dyar, C., Crosby, S., Newcomb, M. E., Mustanski, B., & Kaysen, D. (2024). Doomscrolling: Prospective associations between daily COVID news exposure, internalizing symptoms, and substance use among sexual and gender minority individuals assigned female at birth. Psychology of Sexual Orientation and Gender Diversity, 11(1), 139–152.
  9. Holman, E. A., Garfin, D. R., & Silver, R. C. (2024). It matters what you see: Graphic media images of war and terror may amplify distress. Proceedings of the National Academy of Sciences, 121(29), e2318465121.
  10. McIntyre, K., & Lough, K. (2023). Evaluating the effects of solutions and constructive journalism: A systematic review of audience-focused research. Newspaper Research Journal, 44(3), 276–300.

Artigos relacionados

Continuar a ler sobre temas próximos:

Wilson Ferreira Santos é psicólogo, inscrito na Ordem dos Psicólogos Portugueses com o n.º 25219.

Estes textos acompanham uma prática clínica centrada numa leitura cuidadosa e humana da experiência psicológica.

Quando as notícias começam a ocupar demasiado espaço

Se o contacto constante com notícias o deixa em alerta, exausto ou com dificuldade em desligar, pode fazer sentido conversar sobre o lugar que essa ansiedade ocupa no dia a dia.