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O estigma da saúde mental: porque persiste e como podemos mudá-lo

Melancolia, pintura de Edvard Munch com uma figura sentada junto ao mar
Imagem: Edvard Munch, Melancholy, 1893 / Munchmuseet, Wikimedia Commons, domínio público.

Hoje fala-se mais de saúde mental, mas nem sempre é mais fácil falar da nossa. Podemos acompanhar uma conversa sobre ansiedade e, ainda assim, hesitar em dizer que temos consultas de psicologia. Podemos reconhecer o sofrimento de outra pessoa e pensar, quando nos acontece algo semelhante, que devíamos conseguir resolver tudo sozinhos. Entre aceitar o tema e aceitar aquilo que ele significa na nossa vida pode existir uma distância considerável.

Um perfil publicado em 2023 pela OCDE e pelo Observatório Europeu dos Sistemas e Políticas de Saúde estimava que, em 2019, mais de 2,25 milhões de pessoas em Portugal viviam com uma perturbação de saúde mental: cerca de 22% da população, acima da média de 16,7% da União Europeia.[1] A dimensão do problema não elimina o estigma. Para muitas pessoas, ao sofrimento acrescenta-se a necessidade de lidar com a forma como os outros o interpretam.

Porque persiste, se falamos tanto de saúde mental?

Falar mais de um assunto não significa necessariamente compreendê-lo melhor. É possível concordar que a depressão merece acompanhamento e, ao mesmo tempo, perder a paciência com alguém que deixou de responder às mensagens ou não consegue cumprir aquilo a que se propôs. A aceitação torna-se mais exigente quando o sofrimento deixa de ser uma ideia e começa a afetar a relação que temos com uma pessoa.

Também não olhamos da mesma forma para todos os problemas de saúde mental. Num estudo norte-americano que acompanhou atitudes entre 1996 e 2018, a disponibilidade para a proximidade social aumentou em relação à depressão, mas essa melhoria não se verificou da mesma maneira para a esquizofrenia ou a dependência de álcool. A abertura pode crescer em relação a algumas experiências, enquanto outras continuam a suscitar receio e afastamento.[2]

Em Portugal, um estudo publicado em 2022, baseado no Inquérito Nacional de Saúde Mental, encontrou maior frequência de estigma percebido entre pessoas com perturbações de ansiedade ou do humor do que entre pessoas sem essas perturbações. Os dados dizem respeito a adultos de língua portuguesa residentes no continente e à experiência relatada pelos participantes; não medem as atitudes de toda a população.[3]

O preconceito pode, portanto, coexistir com um discurso aparentemente informado. Saber o nome de uma perturbação não impede que se façam suposições sobre o carácter, a competência ou a capacidade de decisão de quem a vive.

Quando o diagnóstico passa a definir a pessoa

O estigma nem sempre aparece num insulto. Pode surgir quando a opinião de alguém deixa de ser levada a sério depois de se conhecer o seu diagnóstico, ou quando uma dificuldade passada passa a justificar desconfiança sobre tudo o que essa pessoa faz. Deixa-se de olhar para uma situação concreta e começa-se a interpretar a pessoa inteira através dela.

Não se trata apenas de uma palavra desagradável. O estigma envolve associar um rótulo a características negativas e pode traduzir-se em perda de reconhecimento, afastamento ou discriminação. No trabalho, nas relações ou nos serviços que utiliza, alguém pode passar a ser tratado como menos capaz sem que se procure perceber o que consegue fazer e de que apoio precisa.[4]

Por isso, dizer que alguém tem um problema de saúde mental é diferente de deixar que esse problema se torne a única coisa que vemos nessa pessoa. O diagnóstico pode ajudar a compreender uma experiência; não substitui conhecê-la.

Quando o julgamento passa para dentro

Por vezes, as ideias que circulam à nossa volta acabam por entrar na maneira como falamos connosco. "Se eu fosse mais forte, não estava assim." "Ninguém vai confiar em mim." "Para quê tentar, se não vou conseguir?" A pessoa não está apenas a enfrentar uma dificuldade: começa também a avaliar o seu próprio valor através dela.

A investigação chama autoestigma à interiorização destes preconceitos. Quando acontece, pode diminuir a confiança e contribuir para que alguém desista de objetivos ou oportunidades que gostaria de procurar. O limite deixa de vir apenas de fora; pode começar a ser antecipado pela própria pessoa.[5]

Algo semelhante pode acontecer com o pedido de ajuda. Antes de marcar uma consulta, há quem se preocupe com a possibilidade de alguém descobrir ou com aquilo que procurar apoio parece dizer sobre si. A par dos custos e das dificuldades de acesso, o receio de revelar o problema pode tornar mais difícil dar esse passo.[6]

O que pode ajudar a mudar?

Informar-se é importante, mas uma conversa não muda necessariamente por acrescentarmos uma explicação ou corrigirmos um termo. Também importa a disponibilidade para ouvir uma experiência que pode não fazer sentido à primeira vista, sem a reduzir a falta de vontade ou a uma reação exagerada.

O contacto com pessoas que vivem ou viveram problemas de saúde mental é uma das abordagens mais estudadas para reduzir o estigma. Uma meta-análise recente encontrou melhorias nas atitudes após intervenções que promoviam esse contacto: conhecer experiências concretas pode ajudar a contrariar ideias feitas e a ver para além do diagnóstico.[7]

Um cuidado concreto é dizer “pessoa com esquizofrenia”, em vez de usar o diagnóstico como definição da pessoa. Importa também respeitar a forma como ela prefere ser designada. A evidência de que esta mudança de palavras, por si só, reduz o estigma é limitada e inconsistente; o respeito tem de se traduzir igualmente na maneira como ouvimos e tratamos alguém.[8]

No quotidiano, essa disponibilidade pode começar com uma pergunta simples: "O que seria útil para ti neste momento?" A resposta pode ser companhia, ajuda numa tarefa ou apenas espaço para falar. Apoiar não exige ter uma solução pronta. Exige também aceitar que aquilo de que a pessoa precisa pode ser diferente daquilo que imaginámos.

Falar deve continuar a ser uma escolha

Valorizar a conversa sobre saúde mental não significa que toda a gente deva contar a sua história. Há contextos mais seguros do que outros, relações com diferentes graus de confiança e consequências que merecem ser ponderadas.

Decidir com quem falar, quando e com que detalhe faz parte da autonomia de cada pessoa. Programas estudados internacionalmente, como o Honest, Open, Proud, ajudam a ponderar estas escolhas, de acordo com a situação e as preferências de cada um. Isto não significa que o programa esteja disponível em Portugal. Guardar privacidade não é o mesmo que sentir vergonha, e ninguém tem de se expor para provar que aceita a sua própria experiência.[9]

Uma responsabilidade que não é só individual

Combater o estigma também exige mais do que pedir compreensão nas relações pessoais. Os locais de trabalho, as escolas e os serviços de saúde têm responsabilidade na forma como acolhem dificuldades e preservam oportunidades. Uma atitude simpática não compensa regras ou práticas que excluem.[10]

A mudança começa quando um problema de saúde mental deixa de ser tratado como uma falha de carácter ou uma explicação para tudo. Podemos levar o sofrimento a sério sem reduzir a pessoa a ele. E podemos oferecer apoio sem lhe exigir que, além de lidar com o que está a viver, tenha ainda de justificar porque merece ser ouvida.

Revisto a 6 de outubro de 2026.

Referências

  1. OECD/European Observatory on Health Systems and Policies (2023). Portugal: Country Health Profile 2023. OECD Publishing.
  2. Pescosolido, B. A., Halpern-Manners, A., Luo, L., & Perry, B. (2021). Trends in Public Stigma of Mental Illness in the US, 1996-2018. JAMA Network Open, 4(12), e2140202.
  3. Antunes, A., Silva, M., Azeredo-Lopes, S., Cardoso, G., & Caldas-de-Almeida, J. M. (2022). Perceived stigma and discrimination among persons with mood and anxiety disorders: Results from the WHO World Mental Health Survey Portugal. European Journal of Psychiatry, 36(4), 280-287.
  4. Link, B. G., & Phelan, J. C. (2001). Conceptualizing Stigma. Annual Review of Sociology, 27, 363-385.
  5. Corrigan, P. W., Larson, J. E., & Rüsch, N. (2009). Self-stigma and the “why try” effect: impact on life goals and evidence-based practices. World Psychiatry, 8(2), 75-81.
  6. Clement, S., et al. (2015). What is the impact of mental health-related stigma on help-seeking? A systematic review of quantitative and qualitative studies. Psychological Medicine, 45(1), 11-27.
  7. Maunder, R. D., Atorkey, P., Chapman, A., du Plooy, D. R., Jayant, N., & Sipes, J. (2026). Key components of effective contact interventions for reducing public mental health stigma: An updated meta-analysis. Clinical Psychology Review, 126, 102741.
  8. Jones, D. R., & Sasson, N. J. (2023). A mixed method comparison of stigma toward autism and schizophrenia and effects of person-first versus identity-first language. Frontiers in Psychiatry, 14, 1263525.
  9. Rüsch, N., Schulz, C., Weisshap, C., et al. (2026). Real-World Effectiveness of the Peer-Led Honest, Open, Proud Programme for Self-Stigma Among Adults With Mental Illness: A Pragmatic, Multicentre, Randomised Controlled Trial. The Lancet Regional Health – Europe, 67, 101751.
  10. Thornicroft, G., Sunkel, C., Aliev, A. A., et al. (2022). The Lancet Commission on ending stigma and discrimination in mental health. The Lancet, 400, 1438-1480.

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Wilson Ferreira Santos é psicólogo, inscrito na Ordem dos Psicólogos Portugueses com o n.º 25219.

Estes textos acompanham uma prática clínica centrada numa leitura cuidadosa e humana da experiência psicológica.

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