Há conteúdos dos quais quase queremos fugir e, ao mesmo tempo, não conseguimos afastar completamente o olhar. Abrimos a notícia que preferíamos não ler, continuamos o episódio que nos desconforta, deixamos correr o documentário embora uma parte de nós queira afastar-se.
O fascínio por crimes reais não nasceu com os podcasts, as séries documentais ou os algoritmos das plataformas de streaming. Muito antes de chamarmos a isto true crime, histórias de assassinato, julgamento, confissão e execução já passavam de mão em mão, eram cantadas nas ruas, impressas em folhas avulsas, comentadas em público e retomadas pelos jornais.[13][14] A forma mudou; a pergunta parece ter ficado. Porque é que certas histórias sombrias nos prendem tanto a atenção?
A primeira explicação costuma ser moralmente simples: talvez haja ali um gosto pelo sofrimento dos outros. Mas a psicologia aponta para uma resposta menos confortável e mais interessante.
O interesse pelo macabro não tem de ser sadismo, frieza ou sinal de patologia. Muitas vezes, aproxima-se daquilo que a investigação chama curiosidade mórbida: a motivação para procurar informação sobre fenómenos perigosos, ameaçadores, aversivos ou tabu.[1][4] A palavra mórbida, aqui, descreve o tipo de conteúdo procurado — morte, dano, violência, ameaça — e não significa que a curiosidade seja, por si só, “doentia”.
Talvez a pergunta mais precisa não seja “porque gostamos disto?”, mas “porque queremos saber?”. A diferença é importante. Podemos abrir uma notícia, ouvir um episódio ou continuar um documentário sem propriamente gostar daquilo que estamos a ver. Às vezes, o que prende não é prazer. É incerteza.
Estudos de neuroimagem sugerem, aliás, que escolher ver informação mórbida pode envolver circuitos cerebrais associados à recompensa e à curiosidade comum: a descoberta pode ser motivadora mesmo quando aquilo que se descobre é desagradável.[2][3]
A ameaça também informa
O macabro torna-se especialmente poderoso quando há ameaça, incerteza, contexto humano e alguma distância de segurança. Há perigo, mas não estamos fisicamente expostos a ele. Há uma história, mas falta uma explicação.
A esta tensão juntam-se as pessoas envolvidas, as decisões tomadas, o acaso, o erro e a vulnerabilidade. E há uma possibilidade inquietante: talvez possamos aprender alguma coisa sem ter de viver a consequência.
Vê-se isto, numa escala quotidiana, no voyeurismo de estrada: o condutor que abranda para olhar para um acidente, por vezes até para fotografar, mesmo quando nada pode fazer ali. Não é a mesma experiência, mas há ali a mesma tensão em miniatura: o perigo está perto, a distância parece suficiente, e a curiosidade procura uma imagem, uma explicação, um fragmento de controlo.[12]
Subjaz a isto uma das hipóteses mais fortes na investigação atual: conteúdos ameaçadores podem atrair porque oferecem informação sobre risco.[2][9]
Queremos perceber como uma situação se tornou perigosa, que sinais foram ignorados, que intenções estavam em jogo, como alguém aparentemente comum pôde cometer um ato extremo ou como uma pessoa acabou vulnerável numa circunstância concreta.
A diferença face ao terror ficcional ajuda a perceber esta força. Num filme de terror sabemos, a algum nível, que o perigo não existe fora da história. Podemos assustar-nos e, ainda assim, relaxar: aquilo não aconteceu de facto.
No true crime essa saída não existe. Há sempre a consciência de que isto aconteceu realmente a alguém. Essa proximidade com o real torna a experiência mais desconfortável, mas também mais absorvente.
A investigação não indica que o consumo de true crime torne alguém objetivamente mais seguro. Mas ajuda a compreender porque certas narrativas parecem oferecer uma forma de controlo psicológico: transformam uma ameaça vaga numa história com sequência, motivos, sinais e consequências.
Não é só violência: é mente, contexto e mistério
Um dos pontos mais interessantes é que a curiosidade pelo true crime não parece ser explicada sobretudo pela procura de imagens gráficas. Estudos sobre curiosidade mórbida mostram que as pessoas tendem a interessar-se mais por cenas negativas com contexto social do que por dano corporal descontextualizado.[2][4] Ou seja: não é apenas o sangue que prende. É a pergunta sobre o que aconteceu.
No consumo de true crime, a curiosidade pela mente de pessoas perigosas parece ser particularmente relevante, mais do que a curiosidade pela violência em si.[9] Muitos ouvintes e espectadores querem compreender padrões, intenções, manipulação, mentira, frieza, impulsividade ou planeamento. A figura do agressor atrai não apenas por ser chocante, mas porque parece abrir uma janela para uma possibilidade humana que preferíamos manter distante.
A fronteira é delicada: compreender não é desculpar; interessar-se não é admirar. Mas as narrativas podem facilmente escorregar de uma tentativa de compreensão para uma espécie de mitologia do criminoso. Quando a história dá mais espessura, nome, fotografia e mistério ao agressor do que à vítima, a nossa atenção é ensinada a gravitar para o lugar errado.
Gostar de true crime diz alguma coisa sobre quem somos?
É tentador imaginar um “perfil psicológico” de quem se interessa por true crime: alguém mais frio, mais sombrio, talvez mais perturbado do que a média. Os dados não sustentam essa leitura. Nos estudos que criaram e validaram escalas de curiosidade mórbida, os traços de personalidade clássicos explicaram pouco desta motivação.[4] As associações encontradas são geralmente modestas e não descrevem uma patologia.
Investigações recentes encontraram algumas relações entre curiosidade mórbida, impulsividade, agressividade autodeclarada ou menor amabilidade.[8][9] Mas são correlações, obtidas em amostras específicas. Não permitem concluir que ouvir podcasts de homicídios torne alguém mais agressivo ou menos empático, nem que essas pessoas já o fossem antes de começar a ouvir. Gostar de true crime não é, por si só, um sinal de alarme sobre quem o consome.
True crime, medo e regulação emocional
Outra explicação frequente é a regulação emocional. Tal como acontece com o horror, conteúdos assustadores podem funcionar como uma exposição controlada ao medo: a ameaça está presente no ecrã ou nos auscultadores, mas a pessoa pode pausar, desligar, acelerar, saltar episódios ou escolher quando entra e sai daquela experiência.[9]
Há pessoas que descrevem este consumo como uma forma de se preparar, outras como companhia, outras como tentativa de organizar experiências pessoais difíceis. Em entrevistas com sobreviventes de violência doméstica, por exemplo, algumas participantes referiram encontrar no true crime reconhecimento, linguagem, informação sobre abuso e sentido de comunidade.[6]
Essa ideia pede cuidado. Dizer que algumas pessoas usam true crime para regular emoções não é o mesmo que dizer que true crime é terapêutico.
Um estudo publicado em 2026, que acompanhou quase 200 pessoas ao longo de 14 dias através de um diário no telemóvel, não encontrou evidência de que consumir true crime num dia aumentasse a ansiedade ou a irritação no dia seguinte. Alguns efeitos pequenos apontaram para regulação emocional, mas ficaram abaixo do que os próprios investigadores consideraram relevante na prática.[10] Por agora, os dados sugerem que o true crime não nos deixa objetivamente pior, mas também não há prova sólida de que nos faça sistematicamente melhor.
Porque tantas mulheres consomem true crime?
A investigação encontra, de forma relativamente consistente, maior consumo de true crime entre mulheres. Uma leitura possível passa pela vigilância defensiva: procurar informação sobre ameaças, sinais de perigo, estratégias de sobrevivência ou situações a evitar. Estudos anteriores ligaram este interesse ao medo de agressão sexual e à procura de informação potencialmente útil para autoproteção.[5]
Esta explicação faz sentido, mas não deve ser transformada numa conclusão simples. Diferenças de risco real, socialização de género, medo culturalmente transmitido, experiências prévias, identificação com vítimas e hábitos de consumo mediático podem cruzar-se. A ciência pode identificar padrões; não deve reduzir milhões de experiências a uma única motivação.
Também aqui vale uma distinção importante: sentir que se aprende com uma história não prova que essa aprendizagem aumente segurança. Pode aumentar sensação de preparação, reconhecer sinais ou dar linguagem ao medo. Isso é psicologicamente relevante. Mas não é o mesmo que demonstrar proteção objetiva.
O papel das plataformas
A cultura digital não inventou a curiosidade mórbida. Alterou, sobretudo, a ecologia da atenção.
Hoje, uma história de crime pode aparecer por recomendação automática, continuar em episódios, gerar fóruns de discussão, transformar-se em cortes curtos, reacender-se com novas teorias e circular entre comunidades de pessoas que comentam, investigam, acusam ou defendem.
A disponibilidade é permanente. A passagem de um caso para outro exige pouco esforço. E aquilo que nos prende durante mais tempo torna-se valioso para plataformas, anunciantes e criadores.
Isto não significa que “o algoritmo” explique tudo. Faltam estudos independentes que mostrem, com precisão, como cada plataforma amplifica este tipo de conteúdo e com que efeitos psicológicos. Mas é razoável dizer que a infraestrutura digital tornou a curiosidade mais fácil de satisfazer, mais fácil de repetir e mais fácil de monetizar.
A questão ética: quando a curiosidade encontra pessoas reais
A psicologia pode explicar porque queremos saber. Não consegue, sozinha, responder se devemos transformar tudo aquilo que queremos saber em entretenimento.
No true crime, as vítimas existiram. As famílias continuam a existir. Há pessoas que veem a sua dor convertida em episódio, debate, teoria, meme, conteúdo recomendado ou objeto de especulação.
Estudos recentes com familiares e pessoas próximas de casos retratados apontam problemas recorrentes: inexatidões, sensacionalização, perda de privacidade, contacto indesejado por parte de audiências e sensação de falta de controlo sobre a forma como a história foi usada.[7]
Há ainda desigualdades de atenção. A literatura sobre o chamado Missing White Woman Syndrome mostra que algumas vítimas recebem muito mais cobertura, empatia e narrativa pública do que outras.[11] A passagem para podcasts e plataformas digitais não eliminou automaticamente esses vieses. Pode até reproduzi-los com outra estética.
Consumir true crime de forma ética talvez passe por perguntas simples: a história centra a vítima ou transforma o agressor numa figura fascinante? Distingue factos de especulação? Evita detalhes gráficos sem valor informativo? Respeita familiares? Reconhece incertezas? Desencoraja perseguição, acusações públicas e “investigações” amadoras dirigidas a pessoas reais?
Então porque não desviamos o olhar?
Porque o ameaçador ativa, ao mesmo tempo, afastamento e aproximação. Uma parte de nós quer evitar aquilo que assusta, repugna ou perturba.
Outra parte quer compreender, reduzir incerteza, antecipar perigo, reconhecer intenções, completar a história. A curiosidade mórbida nasce nessa tensão.
O true crime é tão eficaz porque oferece perigo sem exposição física, mistério com promessa de resolução e acesso narrativo a zonas extremas do comportamento humano. Mas a ciência recomenda contenção: sabemos bastante sobre porque nos aproximamos deste tipo de conteúdo; sabemos muito menos sobre aquilo em que essa aproximação nos transforma a longo prazo.
Talvez a resposta mais honesta seja esta: olhar para o macabro não nos torna desumanos, mas também não nos dispensa de responsabilidade. A curiosidade é humana. O modo como a alimentamos, o que ela apaga e quem paga o preço da nossa atenção são perguntas que continuam em aberto.
Referências
- Zuckerman, M., & Litle, P. (1986). Personality and curiosity about morbid and sexual events. Personality and Individual Differences, 7, 49-56.
- Oosterwijk, S. (2017). Choosing the negative: A behavioral demonstration of morbid curiosity. PLOS ONE, 12(7), e0178399.
- Oosterwijk, S., Snoek, L., Tekoppele, J., Engelbert, L. H., & Scholte, H. S. (2020). Choosing to view morbid information involves reward circuitry. Scientific Reports, 10, 15291.
- Scrivner, C. (2021). The psychology of morbid curiosity: Development and initial validation of the Morbid Curiosity Scale. Personality and Individual Differences, 183, 111139.
- McDonald, M. M., James, R. M., & Roberto, D. P. (2021). True crime consumption as defensive vigilance. Archives of Sexual Behavior, 50, 2085-2108.
- Boling, K. S. (2023). Domestic violence survivors in true crime podcast audiences. Mass Communication and Society, 26(6), 991-1013.
- Boling, K. S., & Slakoff, D. C. (2025). Examining the adverse effects of true crime media on co-victims. Crime, Media, Culture.
- da Silva, P. D. G., de Queiroz Gomes, A. I., Gouveia, V. V., & Coutinho, T. V. (2026). Morbid curiosity and its personality correlates: A psycholexical perspective. Personality and Individual Differences, 257, 113784.
- Perchtold-Stefan, C., Rominger, C., Ceh, S., Sattler, K., Veit, S.-V., & Fink, A. (2026). Psychological perspectives on people's fascination with true crime. British Journal of Psychology, 117(3), 880-909.
- Perchtold-Stefan, C. M., Rominger, C., & Fink, A. (2026). Does true crime increase negative affect, or negative affect lead to true crime? A cross-lagged analysis on the dynamics of consuming frightening media. BMC Psychology, 14, 1247.
- Sommers, Z. (2016). Missing White Woman Syndrome: An empirical analysis of race and gender disparities in online news coverage of missing persons. Journal of Criminal Law and Criminology, 106(2).
- Jornal de Notícias. (s.d.). Voyeurismo mórbido na Segunda Circular: a velocidade, as fotos e o crime.
- MacMillan, K. (2016). True Crime Reporting in Early Modern England. Oxford Research Encyclopedia of Criminology and Criminal Justice.
- Cambridge University Library. (s.d.). Staging crime. Read all about it!