A discussão sobre os telemóveis na escola tornou-se rapidamente polarizada. Para alguns, proibir é uma resposta evidente à distração, à quebra da atenção, ao cyberbullying e às dificuldades de saúde mental. Para outros, retirar os telemóveis parece uma medida simplista, autoritária ou incompatível com a educação digital.

A investigação disponível não confirma inteiramente nenhuma destas posições.

O uso recreativo do smartphone durante as aulas é, de facto, uma fonte real de distração. Pode competir com a atenção, interromper a aprendizagem e dificultar o regresso à tarefa. Mas demonstrar que os telemóveis podem criar problemas não é o mesmo que demonstrar que uma proibição durante todo o dia resolve esses problemas.

Quando se avaliam políticas escolares concretas, os resultados são mais mistos: algumas medidas parecem melhorar modestamente o desempenho e tornar o ambiente escolar mais tranquilo; outras reduzem muito o uso do telemóvel sem produzir alterações claras nas notas, na assiduidade, no cyberbullying ou no bem-estar psicológico.

A conclusão mais prudente é esta: restringir o uso recreativo dos telemóveis durante as atividades letivas faz sentido, mas não deve ser apresentado como uma solução milagrosa para problemas escolares e psicológicos complexos.

A pergunta não é apenas proibir ou permitir

Uma das dificuldades deste debate é que a expressão “proibição de telemóveis” pode significar coisas muito diferentes. Pode querer dizer que o aparelho fica desligado na mochila durante a aula, que é entregue ao professor, que permanece numa bolsa fechada durante todo o dia, ou que só pode ser utilizado em situações pedagógicas, médicas ou de acessibilidade.

Estas diferenças importam. Uma regra escrita, mas aplicada de forma irregular, não tem o mesmo efeito que uma política clara, previsível e sustentada pela organização da escola. A investigação sugere que o modo como a regra é aplicada pode ser tão importante como a regra em si.

Também é importante separar perguntas que muitas vezes aparecem misturadas:

  • O telemóvel distrai durante a aula?
  • Retirar o telemóvel reduz o seu uso durante o horário escolar?
  • Essa redução melhora as notas?
  • A proibição melhora a saúde mental ou elimina o cyberbullying?

A evidência é mais forte para as duas primeiras perguntas. O uso recreativo durante a aula tende a distrair, e uma política bem aplicada tende a reduzir o uso. Já os efeitos nas notas, na saúde mental e no cyberbullying são mais variáveis e dependem muito do contexto.

Atenção, aprendizagem e distração

A presença de um smartphone cria oportunidades permanentes para desviar a atenção: notificações, mensagens, redes sociais, vídeos, jogos e a simples expectativa de receber uma resposta. Mesmo uma consulta breve pode fragmentar a concentração e tornar mais difícil regressar plenamente à tarefa.

Os dados do PISA 2022, analisados pela OCDE, mostram que muitos alunos relatam distração causada por dispositivos digitais nas aulas. Os alunos que se sentem mais distraídos tendem também a apresentar piores resultados. Esta associação não prova, por si só, uma relação causal simples, mas é coerente com aquilo que professores, alunos e famílias observam no quotidiano.

Ao mesmo tempo, a tecnologia não é inerentemente prejudicial. O uso digital pode ser útil quando tem uma finalidade pedagógica clara, é moderado, orientado pelo professor e integrado numa atividade concreta. O problema maior parece estar no uso recreativo, constante ou difícil de controlar, sobretudo quando compete com tarefas que exigem atenção sustentada.

Por isso, uma aula sem telemóveis pode decorrer melhor sem que isso se traduza automaticamente em grandes alterações nas classificações finais. As notas dependem também da qualidade do ensino, do sono, da motivação, do apoio familiar, das dificuldades de aprendizagem, da saúde mental e de muitos outros fatores.

Quando os telemóveis são realmente retirados

As políticas mais rigorosas conseguem, em geral, reduzir o acesso aos aparelhos durante o dia escolar. Isto pode diminuir interrupções, aliviar parte da gestão da sala de aula e criar mais espaço para interação presencial.

Mas os resultados dos estudos recentes não são uniformes. Uma grande análise norte-americana sobre bolsas fechadas encontrou uma forte redução do uso, mas efeitos médios pequenos ou próximos de zero nas notas, na assiduidade e no cyberbullying, pelo menos nos primeiros anos. Em alguns contextos surgiram dificuldades de adaptação inicial, incluindo mais incidentes disciplinares.

Outros estudos encontraram benefícios mais claros. No Brasil, por exemplo, algumas restrições foram associadas a melhorias em testes padronizados, sobretudo em escolas que anteriormente tinham regras menos consistentes. Na Noruega, um estudo quase-experimental encontrou efeitos positivos em alguns indicadores, particularmente entre raparigas e alunos de meios mais desfavorecidos.

Esta diversidade de resultados não significa que a investigação seja inútil. Significa que a pergunta deve ser mais cuidadosa: que tipo de restrição, aplicada a que idades, em que escola, com que alternativas, com que consequências e com que acompanhamento?

Notas: benefícios possíveis, mas geralmente modestos

Quando aparecem ganhos académicos, estes tendem a ser modestos e desiguais. Podem ser mais relevantes para alunos que antes usavam mais o telemóvel, tinham maior dificuldade em manter a atenção ou dispunham de menos recursos para compensar a distração.

Isto é importante porque uma pequena melhoria média pode esconder efeitos úteis para alguns grupos e quase nenhum efeito para outros. Da mesma forma, uma regra aparentemente neutra pode gerar mais sanções disciplinares em determinados alunos se for aplicada de forma rígida, desigual ou pouco compreendida.

Uma política sensata não deve, por isso, avaliar apenas se “funciona” em média. Deve acompanhar o que acontece a diferentes idades, anos escolares, grupos sociais, alunos com necessidades específicas e jovens com maior histórico disciplinar.

Saúde mental e cyberbullying: a evidência é mais incerta

A relação entre smartphones, redes sociais e saúde mental dos adolescentes é complexa. O uso compulsivo, a comparação social, a exposição a conteúdos nocivos, a interrupção do sono e o cyberbullying podem contribuir para sofrimento psicológico. Mas impedir o acesso ao telemóvel durante algumas horas por dia não elimina, por si só, essas dinâmicas.

Alguns estudos recentes não encontraram diferenças significativas de ansiedade, depressão ou bem-estar entre escolas com políticas mais restritivas e menos restritivas. O fator mais associado a piores indicadores parecia ser o tempo total de uso do telemóvel e das redes sociais, dentro e fora da escola.

Também no cyberbullying é preciso cautela. Uma proibição pode reduzir fotografias, mensagens, gravações ou publicações durante o horário escolar. Isso é relevante. Mas muitos conflitos digitais continuam depois das aulas, à noite e ao fim de semana. Podem começar online e entrar na escola no dia seguinte, ou começar na escola e continuar nas plataformas.

Por isso, uma política contra o cyberbullying precisa de mais do que retirar aparelhos: mecanismos seguros de denúncia, intervenção precoce, literacia digital, educação socioemocional, trabalho com famílias, responsabilização dos agressores e apoio às vítimas.

O caso português

Em Portugal, as regras sobre smartphones nas escolas têm vindo a ser reforçadas. A discussão nacional acompanha uma tendência internacional: segundo a UNESCO, o número de sistemas educativos com proibições ou restrições nacionais aumentou rapidamente nos últimos anos.

O relatório português do PLANAPP sobre a implementação das regras no ano letivo de 2025/2026 encontrou relatos de elevado cumprimento e melhorias percebidas sobretudo na socialização e, em menor grau, na disciplina. Estes dados são relevantes porque recolhem a experiência de quem gere as escolas no dia a dia.

Mas também devem ser interpretados com prudência. O relatório baseia-se sobretudo em perceções de diretores e responsáveis escolares, não em medidas diretas de saúde mental, resultados académicos individuais, uso objetivo dos aparelhos ou episódios de bullying confirmados por múltiplas fontes.

Ou seja, os dados portugueses ajudam a perceber a exequibilidade e o ambiente escolar percebido, mas não provam, por si só, que as proibições tenham aumentado as notas ou reduzido ansiedade, depressão ou cyberbullying.

O que parece mais sensato

A partir do conjunto da evidência, parece razoável defender algumas ideias práticas.

Durante as aulas, o padrão deve ser a ausência de utilização recreativa. O telemóvel deve estar fora da vista e não competir com a atenção necessária para aprender. A utilização pedagógica pode existir, mas deve ter um objetivo claro e ser orientada pelo professor.

Nos alunos mais novos, uma regra simples e uniforme pode ser mais fácil de compreender e aplicar. Nos adolescentes mais velhos, uma restrição durante todo o dia pode ter vantagens organizacionais e sociais, mas exige maior cuidado: participação dos alunos, alternativas nos intervalos, consequências proporcionais e atenção aos efeitos de adaptação.

As exceções devem ser claras. Situações de saúde, acessibilidade, tradução, necessidades educativas, condições familiares especiais ou atividades pedagógicas justificadas precisam de procedimentos definidos. Uma regra firme pode, e deve, ser também inclusiva.

Retirar o telemóvel sem oferecer alternativas pode apenas transformar o tempo sem ecrã em tédio, oposição ou ansiedade. Espaços de convívio, leitura, jogos, desporto, clubes e atividades de recreio não são acessórios; fazem parte da qualidade da política.

Por fim, qualquer restrição deve ser acompanhada por literacia digital. Os jovens precisam de aprender a gerir notificações, privacidade, algoritmos, comparação social, pressão de disponibilidade permanente, desinformação e uso noturno. A escola pode proteger momentos de atenção, mas a relação saudável com a tecnologia constrói-se também fora da escola.

Conclusão

A investigação permite afastar duas ideias extremas.

A primeira é a de que os telemóveis não constituem um problema escolar relevante. Constituem. O uso recreativo durante as aulas compete com a atenção e pode prejudicar a aprendizagem.

A segunda é a de que uma proibição resolverá automaticamente o insucesso escolar, a ansiedade, a depressão, a falta de socialização ou o cyberbullying. A evidência recente não sustenta essa promessa.

A leitura mais fiel parece ser esta: restringir o uso recreativo dos telemóveis durante as aulas é sensato e provavelmente benéfico para o ambiente de aprendizagem. Uma proibição durante todo o dia pode trazer vantagens em alguns contextos, mas os seus efeitos nas notas e na saúde mental são variáveis e geralmente modestos.

O sucesso depende menos da palavra “proibição” e mais da consistência, da idade dos alunos, da forma de aplicação, das alternativas criadas e da educação digital que acompanha a regra.

Os problemas associados à vida digital não começam à porta da escola nem terminam quando toca a campainha. As restrições escolares podem proteger períodos importantes de atenção, relação e aprendizagem. Mas só uma estratégia mais ampla, envolvendo escola, família, saúde, plataformas digitais e os próprios jovens, pode promover uma relação verdadeiramente saudável com a tecnologia.

Referências selecionadas

Allcott, H., Baron, E. J., Dee, T., Duckworth, A. L., Gentzkow, M., & Jacob, B. (2026). The Effects of School Phone Bans: National Evidence from Lockable Pouches. NBER Working Paper n.º 35132. NBER

Böttger, T., et al. (2024). To Ban or Not to Ban? A Rapid Review on the Impact of Smartphone Bans in Schools on Social Well-Being and Academic Performance. Education Sciences, 14(8), 906. MDPI

Goodyear, V. A., et al. (2025). School phone policies and their association with mental wellbeing, phone use, and social media use (SMART Schools). The Lancet Regional Health - Europe. PubMed Central

OCDE. (2024). Managing Screen Time: How to Protect and Equip Students Against Distraction. OCDE

PLANAPP. (2026). Acompanhamento do efeito das regras e recomendações sobre o uso de smartphones nas escolas. PLANAPP

UNESCO. (2026). Phone bans in schools are spreading worldwide as the policy debate rages on. UNESCO

Vanluydt, E., et al. (2026). Disconnect to Reconnect: How Variations between Types of Smartphone Bans Influence Students' Well-being and Social Connectedness in Dutch Secondary Education. Journal of Youth and Adolescence. Springer

Wilson Ferreira Santos é psicólogo, inscrito na Ordem dos Psicólogos Portugueses com o n.º 25219.

Estes textos acompanham uma prática clínica centrada numa leitura cuidadosa e humana da experiência psicológica.