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Mudança de hora: o que muda no nosso corpo e como adaptar-se

Natureza-morta de Paul Cézanne com um relógio preto
Imagem: Paul Cézanne, La Pendule noire / Wikimedia Commons, domínio público.

Duas vezes por ano, os relógios mudam uma hora. Em março, adiantam-se; em outubro, recuam. Parece uma alteração pequena, mas pode mexer com o sono e com a forma como organizamos o dia.

Porque mudamos a hora?

O horário de verão foi adotado para distribuir a luz do dia de outra forma e reduzir o consumo de energia. Uma análise de estudos encontrou, em média, uma poupança de eletricidade pequena, que varia conforme o lugar e as condições estudadas.[1] Entretanto, tornou-se mais importante perguntar o que esta organização do tempo significa para o sono, a saúde e a vida quotidiana.

Há uma diferença essencial: mudar o relógio não encurta nem alonga o dia. A quantidade de luz natural muda ao longo das estações; o relógio altera a hora a que essa luz aparece nas nossas rotinas. Quando recua em outubro, o sol nasce e põe-se cerca de uma hora mais cedo no horário civil.

O que acontece ao nosso corpo

O nosso relógio biológico ajuda a regular o sono e a vigília e ajusta-se, em parte, pela luz que recebemos. A mudança da hora desloca de repente os horários sociais em relação à luz natural. Algumas pessoas notam sonolência, irritabilidade ou dificuldade em adormecer durante a adaptação; outras quase não sentem a diferença.

As duas mudanças também não são iguais. Em março, ao adiantar o relógio, perdemos uma hora na noite da transição e pode ser mais difícil acordar à hora habitual. Em outubro, ganhamos essa hora no relógio, mas isso não significa que todos durmam mais ou melhor. Num estudo com registos de sono de adultos no Reino Unido, o sono foi, em média, mais longo no domingo da mudança de outono; a investigação, no conjunto, encontra efeitos mais consistentes na transição de primavera.[2][3]

Para alguns indicadores de saúde, incluindo problemas cardíacos, há estudos que identificam um pequeno aumento de risco após a mudança de março. Para outros resultados, os dados são menos claros ou contraditórios. Não é adequado assumir que o mesmo risco existe nas duas transições, nem que uma noite diferente se traduz necessariamente num problema de saúde.[4]

O outono, a luz e o humor

Depois da mudança de outubro, quem passa o dia na escola ou no trabalho pode ter menos oportunidades de aproveitar a luz ao fim da tarde. O relógio não retirou uma hora de sol, mas alterou a forma como podemos usá-la.

Também não há uma resposta única sobre o efeito da mudança no humor. Um estudo dinamarquês encontrou mais contactos hospitalares por depressão nas semanas seguintes à transição de outono. Já um estudo inglês mais recente encontrou menos registos de depressão nos cuidados de saúde na primeira semana. Os estudos observam contextos e serviços diferentes; juntos, não permitem dizer que recuar o relógio provoca depressão em toda a população.[5][6]

Outra questão é a depressão com padrão sazonal, cujos episódios regressam em determinadas épocas do ano. A luz e os ritmos biológicos podem ter um papel importante, mas não se trata de uma consequência automática da mudança da hora. E sentir-se mais cansado ou menos motivado num dia escuro não equivale, por si só, a ter uma depressão. Em Portugal, um estudo com estudantes encontrou sensibilidade às estações, mas a amostra não permite estimar quantas pessoas no país têm depressão sazonal.[7][8]

Deve acabar a mudança da hora?

A Associação Portuguesa de Sono defende o fim das mudanças semestrais e, se houver um horário fixo, prefere a hora padrão, muitas vezes chamada «hora de inverno». O argumento principal é o maior alinhamento entre os horários sociais e a luz da manhã, importante para acertar o relógio biológico.[9]

Isso não torna a escolha simples para todas as pessoas. Manter o horário de verão durante o inverno daria mais luz ao fim da tarde no relógio, mas atrasaria o nascer do sol, deixando mais escuro o início do dia. Manter a hora padrão preservaria manhãs mais luminosas, à custa de tardes mais escuras. A decisão envolve saúde, escola, trabalho e hábitos de vida; os estudos disponíveis não atribuem um resultado uniforme a todas as regiões e pessoas.[4]

Como facilitar a adaptação

Enquanto as mudanças continuarem, algumas medidas podem tornar a transição mais confortável:

  • Proteja o tempo de sono: sobretudo antes da mudança de março, evite chegar à transição já com noites demasiado curtas. Se costuma sentir a alteração, ajuste gradualmente as horas de deitar e levantar nos dias anteriores.
  • Procure luz natural: se possível, saia de casa de manhã para dar ao corpo uma referência para o início do dia. No outono e no inverno, aproveite também a luz disponível noutras horas.
  • Mantenha alguma regularidade: horários de sono e refeições relativamente estáveis facilitam a adaptação.
  • Reduza a luz intensa antes de dormir: um ambiente mais calmo e escuro pode ajudar a preparar o sono.

Em resumo: a mudança do relógio pode perturbar o sono durante alguns dias; a diminuição da luz natural ao longo do outono é um processo diferente. Distinguir as duas coisas ajuda-nos a compreender melhor o que sentimos e a escolher o que fazer.

Se a tristeza, o cansaço ou as alterações do sono persistirem e interferirem com a vida quotidiana, vale a pena procurar apoio profissional. Não é preciso atribuir tudo à estação ou ao relógio para levar a sério o que se está a sentir.

Revisto a 20 de setembro de 2026.

Referências

  1. Havranek, T., Herman, D., & Irsova, Z. (2018). Does daylight saving save electricity? A meta-analysis. The Energy Journal, 39(2), 35–61.
  2. de Lange, M. A., et al. (2025). The effects of daylight saving time clock changes on accelerometer-measured sleep duration in the UK Biobank. Journal of Sleep Research, 34(3), e14335.
  3. Romigi, A., et al. (2025). The effects of daylight saving time and clock time transitions on sleep and sleepiness: a systematic review. Sleep Medicine Reviews, 84, 102161.
  4. Steponenaite, A., et al. (2026). A systematic review of epidemiological studies into daylight-saving time & health identifying beneficial & adverse effects. European Journal of Epidemiology, 41, 419–433.
  5. Hansen, B. T., Sønderskov, K. M., Hageman, I., Dinesen, P. T., & Østergaard, S. D. (2017). Daylight savings time transitions and the incidence rate of unipolar depressive episodes. Epidemiology, 28(3), 346–353.
  6. de Lange, M. A., et al. (2025). Acute effects of daylight saving time clock changes on mental and physical health in England: population based retrospective cohort study. BMJ, 391, e085962.
  7. National Institute of Mental Health. (2023). Seasonal affective disorder.
  8. Fonte, A., & Coutinho, B. (2021). Seasonal sensitivity and psychiatric morbidity: study about seasonal affective disorder. BMC Psychiatry, 21, 317.
  9. Associação Portuguesa de Sono. (2021). A mudança da hora. Parecer apresentado em 2020 e ratificado em 2021.

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Wilson Ferreira Santos é psicólogo, inscrito na Ordem dos Psicólogos Portugueses com o n.º 25219.

Estes textos acompanham uma prática clínica centrada numa leitura cuidadosa e humana da experiência psicológica.