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Exercício físico e saúde mental: cuidar da mente pelo corpo

Cinco figuras dançam de mãos dadas numa pintura de Henri Matisse
Henri Matisse, Dance II (1910). Wikimedia Commons.

Quando pensamos em exercício físico, é comum associá-lo à perda de peso, ao fortalecimento dos músculos ou à prevenção de doenças cardiovasculares. No entanto, os seus efeitos não se limitam ao corpo. A atividade física também pode influenciar o humor, o sono, a ansiedade, a energia e a forma como lidamos com o stress.

É neste contexto que o exercício tem vindo a ser reconhecido não apenas como forma de prevenção, mas também como uma opção de tratamento, sobretudo para sintomas de depressão.

O que nos diz a investigação?

Uma ampla revisão publicada no British Journal of Sports Medicine, que reuniu resultados de mais de mil estudos e quase 80 mil participantes, concluiu que a atividade física pode contribuir para a redução de sintomas de depressão e ansiedade.[1]

No caso específico da depressão, uma revisão de 218 estudos, envolvendo mais de 14 mil participantes, encontrou benefícios em atividades como caminhar, correr, praticar treino de força, yoga ou dança. Uma revisão atualizada da Cochrane, que reuniu 73 ensaios clínicos, concluiu igualmente que o exercício pode produzir uma redução moderada dos sintomas depressivos, embora a qualidade dos estudos varie e os efeitos a longo prazo permaneçam menos claros.[2][3]

Na ansiedade, os resultados também são promissores, mas menos consistentes quando se analisam perturbações de ansiedade diagnosticadas. É, por isso, mais rigoroso falar numa possível redução de sintomas de ansiedade do que apresentar o exercício como tratamento autónomo para todas estas perturbações.[4] Isto não significa que o exercício tenha o mesmo efeito em todas as pessoas ou que possa substituir automaticamente outros tratamentos. Significa, porém, que não deve ser visto apenas como um conselho genérico para adotar um “estilo de vida saudável”. Em determinadas situações, pode ser uma parte relevante de um plano de intervenção mais abrangente.

Como pode o exercício ajudar?

Não existe uma única explicação para os efeitos do exercício na saúde mental. Os benefícios parecem resultar da combinação de processos físicos, psicológicos e sociais.[5]

A atividade física influencia sistemas biológicos envolvidos na resposta ao stress, na neuroplasticidade e na regulação do humor. No entanto, embora existam alterações mensuráveis em alguns marcadores, ainda não sabemos quanto cada mecanismo contribui para a melhoria clínica. Explicações centradas apenas nas “endorfinas” são, por isso, demasiado simples.[6] O exercício pode também aliviar a tensão física acumulada e aumentar a energia e a sensação de vitalidade.[7]

No entanto, os seus efeitos não se resumem ao que acontece no cérebro. O exercício também pode introduzir estrutura no quotidiano, criar uma pausa relativamente às preocupações e proporcionar uma experiência concreta de realização.

Também pode aumentar gradualmente a perceção de capacidade. Conseguir caminhar um pouco mais, aprender um exercício ou manter alguma regularidade permite observar mudanças concretas. Para quem sente que perdeu o controlo sobre vários aspetos da vida, estas pequenas experiências podem ser psicologicamente importantes. A autoestima, a sensação de competência, o apoio e a ligação social estão entre os possíveis caminhos através dos quais a atividade física beneficia a saúde mental, embora parte desta investigação ainda seja observacional.[5]

Quando realizado em grupo, o exercício pode ainda promover contacto social, compromisso partilhado e sentimento de pertença. Para algumas pessoas, estes elementos são tão relevantes como a atividade física propriamente dita. Isso não torna as atividades coletivas automaticamente superiores: uma prática individual, escolhida com autonomia e apoiada por alguém, pode ser igualmente adequada.

É preciso praticar exercício intenso?

Não necessariamente.

Alguns estudos indicam que atividades de intensidade moderada ou elevada podem produzir efeitos mais acentuados em determinados sintomas depressivos. No entanto, isto não significa que apenas o exercício intenso seja útil.[2]

Atividades mais leves também podem trazer benefícios, sobretudo para quem está sedentário, tem limitações físicas ou atravessa um período em que a energia e a motivação estão reduzidas.

A atividade mais eficaz será, muitas vezes, aquela que a pessoa consegue realizar com alguma regularidade.

Para quem não pratica exercício, começar por caminhadas curtas pode ser mais realista do que estabelecer imediatamente um plano exigente. Uma meta demasiado elevada pode transformar uma tentativa de autocuidado numa nova fonte de culpa ou numa experiência de fracasso.

O movimento não deve ser utilizado como castigo, obrigação moral ou prova de força de vontade. Dizer a alguém que está deprimido que deve simplesmente “levantar-se e fazer exercício” ignora que a falta de energia, a perda de prazer e a dificuldade em iniciar tarefas fazem parte do próprio problema.

Qual é o melhor tipo de exercício?

Não existe uma modalidade universalmente superior para todas as pessoas.

O exercício aeróbico, como caminhar, correr, nadar ou andar de bicicleta, é uma das formas mais estudadas. O treino de força também tem demonstrado benefícios, tal como atividades que combinam movimento, respiração e atenção, como o yoga.[2]

Caminhar é uma opção particularmente acessível. Não exige necessariamente equipamento específico, pode ser adaptado ao ritmo de cada pessoa e é relativamente fácil de integrar no quotidiano. Uma revisão de 75 ensaios clínicos encontrou reduções de sintomas depressivos e de ansiedade com diferentes formas de caminhada, embora os resultados variassem consideravelmente entre estudos.[8]

A investigação sobre caminhadas em espaços naturais encontrou também melhorias no humor, no bem-estar, na ansiedade, no stress e na tendência para permanecer preso em pensamentos repetitivos.[9] A natureza pode acrescentar uma experiência de pausa e recuperação, mas ainda não é claro até que ponto os benefícios excedem os da própria caminhada.[10] Ainda assim, não é necessário viver perto de uma floresta. Um jardim, um parque ou uma rua tranquila podem proporcionar uma mudança de ambiente e de ritmo.

A escolha da atividade deve ter em conta a condição física, o estado de saúde, as preferências, os recursos disponíveis e a possibilidade de a prática ser mantida ao longo do tempo.

Porque é tão difícil começar?

Quando estamos bem, pode parecer que fazer exercício depende apenas de decisão e disciplina. No entanto, muitas dificuldades psicológicas afetam diretamente os processos necessários para iniciar e manter uma atividade.

A depressão pode reduzir a energia, a motivação e a capacidade de antecipar prazer. A ansiedade pode fazer com que um ginásio, uma aula de grupo ou até sair de casa pareçam ameaçadores. A baixa autoestima pode aumentar o receio de julgamento. O cansaço e as alterações do sono podem tornar qualquer esforço mais difícil.

Por esse motivo, recomendações vagas como “tem de fazer exercício” podem ser pouco úteis e aumentar o sentimento de culpa. Muitas vezes, é necessário dividir o objetivo em passos menores, identificar os obstáculos concretos e adaptar a atividade à realidade da pessoa.

Como começar de forma realista?

Não é necessário começar com grandes metas. Pode ser mais útil escolher uma atividade simples, específica e possível de repetir.

Em vez de definir como objetivo “começar a fazer exercício”, pode ser mais concreto decidir caminhar durante dez minutos depois do almoço, duas vezes por semana. Objetivos modestos e específicos são geralmente mais fáceis de iniciar e avaliar.

Pode também ajudar:

  • escolher uma atividade minimamente agradável;
  • associá-la a uma rotina já existente;
  • realizá-la com outra pessoa;
  • preparar antecipadamente a roupa ou o material necessário;
  • observar como se sente antes e depois da atividade;
  • aceitar que haverá dias e semanas menos regulares.

Falhar um dia não significa que o esforço anterior perdeu valor. Nos períodos de maior sofrimento, a falta de exercício não deve transformar-se em mais um motivo de autocrítica.

O exercício pode substituir a psicoterapia ou a medicação?

O exercício pode produzir melhorias importantes, mas não deve ser apresentado como uma substituição automática da psicoterapia, da medicação ou de outros cuidados de saúde.

Em algumas situações ligeiras, o exercício supervisionado pode ser considerado uma das principais estratégias, de acordo com as preferências da pessoa e após avaliação adequada. Em casos moderados ou graves, será geralmente mais adequado integrá-lo num plano mais amplo, que pode incluir acompanhamento psicológico, avaliação médica, medicação e apoio social.[11]

Quem já toma medicação não deve reduzi-la ou suspendê-la apenas porque começou a praticar exercício, sem falar previamente com o profissional de saúde responsável.

Do mesmo modo, pessoas com problemas cardíacos, respiratórios, articulares ou outras limitações poderão necessitar de aconselhamento médico antes de iniciar uma atividade mais exigente.

O exercício não elimina as causas do sofrimento

Uma caminhada não resolve uma relação abusiva, condições de trabalho insustentáveis, dificuldades económicas, discriminação, experiências traumáticas ou uma perturbação psicológica que necessita de acompanhamento.

A saúde mental é influenciada por fatores biológicos, psicológicos, sociais e económicos. O movimento pode ajudar, mas não substitui segurança, apoio, estabilidade ou acesso a cuidados adequados.

Quando a tristeza, a ansiedade, o isolamento, as alterações do sono ou a perda de interesse persistem e interferem com o trabalho, os estudos, as relações ou os cuidados pessoais, é importante procurar ajuda profissional.

Cuidar da mente através do corpo não significa reduzir o sofrimento psicológico a uma questão física. Significa reconhecer que corpo e mente fazem parte da mesma experiência e que, por vezes, começar a mover um pode ajudar a criar espaço para que o outro também se reorganize.

Revisto a 27 de setembro de 2026.

Referências

  1. Munro, N. R., et al. (2026). Effect of exercise on depression and anxiety symptoms: Systematic umbrella review with meta-meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, 60(8), 590–599.
  2. Noetel, M., Sanders, T., Gallardo-Gómez, D., Taylor, P., del Pozo Cruz, B., van den Hoek, D., et al. (2024). Effect of exercise for depression: Systematic review and network meta-analysis of randomised controlled trials. The BMJ, 384, e075847.
  3. Clegg, A. J., et al. (2026). Exercise for depression. Cochrane Database of Systematic Reviews, CD004366.
  4. Stonerock, G. L., Gupta, R. P., & Blumenthal, J. A. (2024). Is exercise a viable therapy for anxiety? Systematic review of recent literature and critical analysis. Progress in Cardiovascular Diseases, 83, 97–115.
  5. White, R. L., et al. (2024). Physical activity and mental health: A systematic review and best-evidence synthesis of mediation and moderation studies. International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity, 21, 134.
  6. Silva, R. C., et al. (2025). Disentangling the biological mechanisms underlying the effects of physical exercise in major depressive disorder: A comprehensive systematic review of randomized controlled trials. Psychological Medicine.
  7. Wender, C. L. A., Manninen, M., & O'Connor, P. J. (2022). The effect of chronic exercise on energy and fatigue states: A systematic review and meta-analysis of randomized trials. Frontiers in Psychology, 13, 907637.
  8. Xu, Z., et al. (2024). The effect of walking on depressive and anxiety symptoms: Systematic review and meta-analysis. JMIR Public Health and Surveillance, 10, e48355.
  9. Ma, J., Lin, P., & Williams, J. (2024). Effectiveness of nature-based walking interventions in improving mental health in adults: A systematic review. Current Psychology, 43, 9521–9539.
  10. Lahart, I., Darcy, P., Gidlow, C., & Calogiuri, G. (2019). The effects of green exercise on physical and mental wellbeing: A systematic review. International Journal of Environmental Research and Public Health, 16(8), 1352.
  11. Lam, R. W., et al. (2024). Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 update on clinical guidelines for management of major depressive disorder in adults. Canadian Journal of Psychiatry, 69(9), 641–687.

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Wilson Ferreira Santos é psicólogo, inscrito na Ordem dos Psicólogos Portugueses com o n.º 25219.

Estes textos acompanham uma prática clínica centrada numa leitura cuidadosa e humana da experiência psicológica.