Quem fala mais do que uma língua poderá já ter sentido que não se expressa exatamente da mesma forma em todas elas.
Em português, uma pessoa pode sentir-se mais reservada, cuidadosa ou emocional. Em inglês, talvez fale de forma mais direta, descontraída ou confiante. Certas palavras surgem naturalmente numa língua, mas parecem artificiais quando são traduzidas. Algumas experiências são mais fáceis de contar numa língua estrangeira, enquanto outras parecem só fazer sentido na língua materna.
Será que mudamos de personalidade quando falamos outra língua?
Não propriamente. Continuamos a ser a mesma pessoa. No entanto, cada língua pode ativar diferentes memórias, emoções, referências culturais e formas de nos relacionarmos com os outros. A investigação encontra mudanças no modo como algumas pessoas se descrevem e, em certas situações, no modo como se comportam. Estas mudanças dependem também do interlocutor, do contexto e das culturas com que a pessoa se identifica: são variações na expressão da personalidade, não o aparecimento de uma personalidade nova.[1][2][3]
A língua não serve apenas para transmitir informação
É comum pensarmos na língua como um instrumento: temos uma ideia, escolhemos palavras e transmitimo-la a outra pessoa.
Na realidade, a relação entre linguagem e pensamento é mais complexa. A língua que utilizamos pode orientar aquilo em que prestamos atenção, a maneira como agrupamos certas experiências e a forma como descrevemos aquilo que sentimos. Isso não significa que determine o que somos capazes de pensar: os seus efeitos tendem a ser flexíveis e dependentes da tarefa e do contexto.[4]
Existem conceitos que têm uma tradução direta, mas há outros que perdem parte do significado quando passam de uma língua para outra. Uma palavra pode ter associações culturais, emocionais e pessoais que não estão presentes no seu equivalente.
Por exemplo, dizer “saudade” não corresponde exatamente a dizer “I miss you” ou “nostalgie”. Isto não quer dizer que só quem fala português possa sentir saudade. Significa que as línguas agrupam e tornam salientes nuances emocionais de maneiras parcialmente diferentes. Um estudo realizado em milhares de línguas encontrou simultaneamente variação cultural e estruturas comuns na forma como os conceitos emocionais se relacionam.[5]
Assim, aprender outra língua não significa apenas aprender palavras diferentes para designar as mesmas coisas. Pode também dar-nos novas formas de distinguir, comunicar e organizar aspetos da experiência.
Cada língua está ligada a uma história diferente
As línguas que falamos não são aprendidas todas no mesmo momento nem nas mesmas circunstâncias.
A língua materna costuma estar ligada à infância, à família, à escola, às primeiras relações e às primeiras experiências emocionais. Uma segunda língua pode ter sido aprendida durante a adolescência ou idade adulta, através de viagens, estudos, trabalho, filmes, música ou relações com pessoas de outros países.
Cada língua vai, assim, ficando associada a contextos diferentes.
Uma pessoa que aprendeu inglês através de viagens, amizades internacionais e experiências positivas poderá associá-lo a maior liberdade e espontaneidade. Em contraste, a língua materna poderá estar mais ligada às expectativas familiares, às responsabilidades e à forma como aprendeu que deveria comportar-se.
Também pode acontecer o contrário. Para quem vive num país estrangeiro, a segunda língua pode estar associada ao trabalho, à burocracia ou à sensação de não conseguir expressar-se com toda a precisão. A língua materna poderá então representar maior segurança, intimidade e pertença.
Não é apenas a estrutura da língua que produz estas diferenças. É também a história vivida através dela.[1][2][3]
Podemos parecer mais extrovertidos noutra língua
Algumas pessoas relatam sentir-se mais confiantes, sociáveis ou diretas quando falam uma língua estrangeira.
Isto não significa necessariamente que tenham desenvolvido uma nova personalidade. Pode significar que a segunda língua está associada a contextos nos quais aprenderam a comportar-se de outra maneira.
A cultura também influencia aquilo que é considerado uma forma adequada de comunicar. Porém, nenhuma cultura é inteiramente “direta” ou “reservada”: há diferenças importantes entre pessoas e situações dentro da mesma comunidade.
Quando falamos outra língua, podemos adaptar-nos, mesmo sem perceber, às normas sociais que lhe associamos e à pessoa com quem estamos a falar. Podem mudar o tom de voz, os gestos, o sentido de humor e a distância que mantemos em relação aos outros.[3]
Além disso, falar numa língua estrangeira pode dar uma sensação de liberdade. Certas frases parecem menos embaraçosas porque estão menos ligadas às regras e expectativas interiorizadas desde a infância. Num conjunto recente de estudos, pessoas bilingues preferiram frequentemente uma língua estrangeira para falar de assuntos embaraçosos, antecipando menos consequências emocionais e interpessoais.[6]
Por essa razão, alguém pode sentir-se mais espontâneo em inglês e mais contido em português, ou exatamente o contrário. O domínio de cada língua, a identidade cultural, o interlocutor e a história vivida em cada contexto podem fazer diferença. Ser bilingue, por si só, também não significa identificar-se igualmente com duas culturas.
As emoções podem ter intensidades diferentes
A primeira língua costuma ter uma ligação emocional particularmente forte, mas não é necessariamente a língua emocionalmente mais próxima em todas as fases da vida.
Foi nela que muitas pessoas ouviram as primeiras palavras de afeto, conforto, crítica, zanga ou medo. As palavras não foram aprendidas apenas através de definições, mas também através de situações emocionalmente marcantes.
Por isso, determinadas expressões podem provocar uma reação mais intensa quando são ouvidas ou pronunciadas na primeira língua. Uma frase de afeto pode parecer mais íntima e uma crítica mais dolorosa. As memórias também tendem a ficar mais acessíveis quando a língua usada para as recordar coincide com a língua do contexto em que foram vividas.[1][2][7]
Uma língua aprendida mais tarde pode criar maior distância emocional. Isso poderá ajudar algumas pessoas a falar sobre acontecimentos difíceis, constrangedores ou dolorosos. Para outras, porém, é precisamente nessa língua que encontram as palavras mais próximas do que sentem.
Contar uma experiência traumática numa segunda língua, por exemplo, pode parecer menos intenso do que contá-la na primeira. Esta distância pode facilitar a comunicação, mas não acontece com todas as pessoas. A segunda língua pode tornar-se profundamente emocional quando está ligada a relações importantes, à migração ou a uma parte central da vida, e a mudança de língua não deve ser interpretada automaticamente como proteção ou evitamento.[8]
Isto não significa que aquilo que é dito seja menos verdadeiro. Significa apenas que a língua utilizada pode alterar a proximidade emocional com a experiência.
Pensamos de forma diferente numa língua estrangeira?
A investigação sugere que utilizar uma língua estrangeira pode influenciar alguns processos de decisão.
Uma língua que dominamos menos pode tornar a leitura e a resposta mais demoradas. Mas demorar mais tempo não significa necessariamente pensar de forma mais cuidadosa.
Este fenómeno é por vezes designado por “efeito da língua estrangeira”. Em alguns estudos, os participantes tomaram decisões diferentes quando os problemas eram apresentados numa segunda língua. Uma análise conjunta encontrou efeitos em certas tarefas morais e de risco, mas também mostrou que variam conforme o tipo de decisão, o domínio da língua e a forma como a tarefa é apresentada.[9]
Isto não significa que pensar numa língua estrangeira seja sempre mais racional ou mais correto. Um menor domínio linguístico também pode dificultar a compreensão de informações complexas, limitar o vocabulário disponível e aumentar o esforço mental.
A influência da língua depende de vários fatores: o nível de fluência, a idade em que foi aprendida, o contexto em que é utilizada e a ligação emocional que a pessoa desenvolveu com ela.
A língua escolhida numa consulta de psicologia
Estas diferenças tornam-se especialmente relevantes numa consulta de psicologia.
A psicoterapia depende, em grande parte, da capacidade de colocar em palavras experiências internas. É através da linguagem que se descrevem emoções, pensamentos, memórias, relações e dificuldades que, por vezes, nunca tinham sido partilhadas.
Algumas pessoas preferem realizar as consultas na sua língua materna porque encontram nela maior precisão emocional. Conseguem explicar melhor aquilo que sentem e aceder mais facilmente a memórias antigas.
Outras preferem falar numa segunda língua. A distância emocional que por vezes sentem nessa língua pode ajudá-las a abordar assuntos que seriam demasiado intensos, embaraçosos ou dolorosos na primeira língua. Também pode acontecer que a segunda língua lhes seja emocionalmente mais próxima.[10][11]
Também é possível que a preferência mude consoante o tema. Uma pessoa pode falar em inglês sobre o trabalho, por ser a língua que utiliza profissionalmente, e passar para português ao recordar uma situação familiar. Certas palavras podem surgir apenas numa língua porque é nela que melhor representam a experiência.
Esta mudança não precisa de ser vista como um obstáculo. Pode fornecer informação sobre a experiência da pessoa, mas também pode ser apenas a forma mais fácil de encontrar as palavras. A investigação nesta área ainda se baseia sobretudo em estudos qualitativos e amostras pequenas; importa, por isso, explorar o significado da escolha com cada pessoa, sem presumir que uma língua é sempre mais autêntica ou que a mudança representa evitamento.[10][11][12]
Na minha prática clínica, disponibilizo consultas de psicologia em português e em inglês. A possibilidade de escolher a língua em que a pessoa se sente mais confortável pode facilitar a comunicação e permitir que o acompanhamento respeite melhor a sua história linguística, cultural e emocional.
Mais do que procurar uma tradução perfeita de cada frase, é importante criar um espaço em que a pessoa possa comunicar com autenticidade. Em alguns momentos, isso poderá significar utilizar uma língua de forma predominante. Noutros, poderá envolver alternar entre línguas.
A língua também deve ser considerada na avaliação psicológica
A questão torna-se igualmente importante quando são aplicados testes e instrumentos de avaliação psicológica.
Uma pessoa pode conversar fluentemente numa segunda língua e, ainda assim, ter mais dificuldade em compreender expressões abstratas, vocabulário emocional ou instruções complexas. O desempenho numa tarefa pode, por isso, refletir não apenas as suas capacidades psicológicas, mas também o domínio da língua utilizada.
As traduções de instrumentos também não são completamente neutras. Uma pergunta que parece simples numa língua pode adquirir outro significado cultural ou emocional noutra.
Por esse motivo, a língua preferida não deve ser confundida automaticamente com a língua dominante. O percurso de aprendizagem, a escolarização, o uso atual, o contexto cultural e até a variedade regional da língua podem ser relevantes. Além disso, uma tradução correta não garante, por si só, que o instrumento tenha normas, validade e fiabilidade adequadas para aquela população ou que os resultados possam ser comparados diretamente entre versões.[13][14]
Não temos várias personalidades, mas várias formas de sermos nós próprios
Falar línguas diferentes não cria personalidades completamente separadas. Contudo, cada língua pode dar acesso a diferentes partes da nossa experiência.
Uma língua pode aproximar-nos da infância e da família. Outra pode estar associada à independência, ao trabalho, às viagens ou a uma relação importante. Em certos momentos, uma pode tornar as emoções mais intensas; noutras circunstâncias, pode ser essa mesma língua que nos ajuda a falar sobre elas.
As diferenças que sentimos não significam que uma das versões seja falsa. Todas fazem parte da mesma pessoa.
A linguagem não é apenas uma forma de expressar aquilo que somos. É também um dos contextos através dos quais construímos, recordamos e compreendemos a nossa própria história.
Talvez, por isso, a pergunta mais útil não seja “qual destas versões é realmente a minha?”, mas sim: “o que é que cada língua me permite sentir, pensar e dizer?”
People who speak more than one language may already have felt that they do not express themselves in exactly the same way in all of them.
In Portuguese, someone may feel more reserved, careful or emotional. In English, they may speak in a more direct, relaxed or confident way. Some words come naturally in one language, but feel artificial when translated. Some experiences also seem easier to explain in one language than in another.
Does this mean that we change personality when we speak another language?
Not exactly. We remain the same person. However, each language can activate different memories, emotions, cultural references and ways of relating to others. Research finds changes in how some people describe themselves and, in certain situations, in how they behave. These changes also depend on the other person, the context and the cultures with which someone identifies: they are variations in the expression of personality, not the emergence of a new personality.[1][2][3]
Language is not only a way of transmitting information
We often think of language as a tool: we have an idea, choose words and communicate it to another person.
In reality, the relationship between language and thought is more complex. The language we use can guide what we pay attention to, how we group certain experiences and how we describe what we feel. This does not mean that it determines what we are able to think: its effects tend to be flexible and dependent on the task and context.[4]
Some concepts have a direct translation, but others lose part of their meaning when they move from one language to another. A word can carry cultural, emotional and personal associations that are not present in its apparent equivalent.
For example, saying “saudade” is not exactly the same as saying “I miss you” or “nostalgie”. This does not mean that only Portuguese speakers can feel saudade. It means that languages group and foreground emotional nuances in partly different ways. A study across thousands of languages found both cultural variation and common structures in the way emotion concepts relate to one another.[5]
Learning another language, then, is not only learning different words for the same things. It can also give us new ways to distinguish, communicate and organise aspects of experience.
Each language is connected to a different history
The languages we speak are not all learned at the same moment or in the same circumstances.
A first language is usually linked to childhood, family, school, early relationships and early emotional experiences. A second language may have been learned during adolescence or adulthood, through travel, study, work, films, friendships or migration.
Each language therefore becomes associated with different contexts.
Someone who learned English through travel, international friendships and positive experiences may associate it with greater freedom and spontaneity. By contrast, their first language may be more connected to family expectations, responsibilities and older emotional memories.
The opposite can also happen. For someone living in another country, the second language may be associated with work, bureaucracy or the feeling of not being able to express themselves with full precision. Their first language may then represent greater safety, intimacy and emotional depth.
It is not only the structure of the language that produces these differences. It is also the history lived through it.[1][2][3]
We may seem more extroverted in another language
Some people report feeling more confident, sociable or direct when speaking a foreign language.
This does not necessarily mean that they have developed a new personality. It may mean that the second language is associated with contexts in which they learned to behave differently.
Culture also influences what is considered an appropriate way to communicate. However, no culture is entirely “direct” or “reserved”: there are important differences between people and situations within the same community.
When we speak another language, we may adapt, even without noticing, to the social norms we associate with it and to the person with whom we are speaking. Tone of voice, gestures, humour and the distance we keep from others may all shift.[3]
Speaking in a foreign language can also create a sense of freedom. Certain sentences may feel less embarrassing because they are less closely tied to rules and expectations internalised in childhood. In a recent series of studies, bilingual participants often preferred a foreign language for embarrassing topics, anticipating fewer emotional and interpersonal consequences.[6]
For that reason, someone may feel more spontaneous in English and more contained in Portuguese, or exactly the opposite. Proficiency, cultural identity, the other person and the history lived in each context can all make a difference. Being bilingual does not, by itself, mean identifying equally with two cultures.
Emotions can have different intensities
A first language often has a particularly strong emotional connection, but it is not necessarily the emotionally closest language at every stage of life.
It is the language in which many people heard their first words of affection, comfort, criticism, anger or fear. Words were not learned only through definitions, but also through emotionally significant situations.
For this reason, certain expressions can provoke a stronger reaction when they are heard or spoken in the first language. A phrase of affection may feel more intimate and criticism may hurt more. Memories also tend to become more accessible when the language used to recall them matches the language of the context in which they were experienced.[1][2][7]
A language learned later can create more emotional distance. This may help some people speak about difficult, embarrassing or painful events. For others, though, it is precisely in that language that they find the words closest to what they feel.
For example, describing a traumatic experience in a second language may feel less intense than describing it in the first. This distance can make it easier to speak, but it does not occur for everyone. A second language can become deeply emotional when it is connected to important relationships, migration or a central part of life, and changing language should not automatically be interpreted as protection or avoidance.[8]
This does not mean that what is said is less true. It simply means that the language used can alter the emotional closeness to the experience.
Do we think differently in a foreign language?
Research suggests that using a foreign language can influence some decision-making processes.
A language we know less well may make reading and responding take longer. But taking more time does not necessarily mean thinking more carefully.
This phenomenon is sometimes called the “foreign language effect”. In some studies, participants made different decisions when problems were presented in a second language. A meta-analysis found effects in certain moral and risk tasks, but also showed that they vary according to the type of decision, language proficiency and how the task is presented.[9]
However, this does not mean that thinking in a foreign language is always more rational or more correct. Lower linguistic proficiency can also make complex information harder to understand, limit available vocabulary and increase mental effort.
The influence of language depends on several factors: fluency, the age at which the language was learned, the context in which it is used and the emotional relationship the person has developed with it.
Language choice in psychological consultation
These differences become especially relevant in psychological consultation.
Psychotherapy depends, to a large extent, on the ability to put inner experiences into words. Through language, people describe emotions, thoughts, memories, relationships and difficulties that may never have been shared before.
Some people prefer to have sessions in their first language because they find greater emotional precision there. They can explain what they feel more clearly and access older memories more easily.
Others prefer to speak in a second language. The emotional distance they sometimes feel in that language may help them approach subjects that would feel too intense, embarrassing or painful in their first language. The second language may also be the one that feels emotionally closer.[10][11]
Preferences may also change depending on the topic. Someone may speak in English about work, because it is the language they use professionally, and switch to Portuguese when remembering a family situation. Certain words may only appear in one language because that is where they best represent the experience.
This shift does not need to be seen as an obstacle. It may tell us something about the person’s experience, but it may also simply be the easiest way to find the words. Research in this area still relies mainly on qualitative studies and small samples. It is therefore important to explore the meaning of language choice with each person, without assuming that one language is always more authentic or that switching represents avoidance.[10][11][12]
In my clinical practice, I offer psychological consultations in Portuguese and English. Being able to choose the language in which a person feels most comfortable can facilitate communication and allow therapy to better respect their history and identity.
More than searching for a perfect translation of every sentence, what matters is creating a space where the person can communicate authentically. At times, this may mean using one language most of the time. At other times, it may involve moving between languages when that movement helps something important to be expressed.
Language should also be considered in psychological assessment
This question is equally important when psychological tests and assessment instruments are used.
A person may speak fluently in a second language and still have more difficulty understanding abstract expressions, emotional vocabulary or complex instructions. Performance on a task may therefore reflect not only cognitive or emotional abilities, but also the relationship with the language in which the assessment is carried out.
Translations of instruments are not completely neutral either. A question that seems simple in one language may acquire another cultural or emotional meaning in another.
For this reason, preferred language should not automatically be confused with dominant language. Learning history, schooling, current use, cultural context and even the regional variety of the language may be relevant. A correct translation also does not, by itself, ensure that the instrument has suitable norms, validity and reliability for that population, or that scores can be compared directly across versions.[13][14]
We do not have several personalities, but several ways of being ourselves
Speaking different languages does not create completely separate personalities. However, each language can give access to different parts of our experience.
One language may bring us closer to childhood and family. Another may be associated with independence, work, travel or an important relationship. At times, one may intensify emotions; in other circumstances, that same language may help us speak about them.
The differences we feel do not mean that one version is false. They all belong to the same person.
Language is not only a way of expressing who we are. It is also one of the contexts through which we build, remember and understand our own history.
Perhaps, for this reason, the most useful question is not “which of these versions is really me?”, but rather: “what does each language allow me to feel, think and say?”
Les personnes qui parlent plus d’une langue ont peut-être déjà eu l’impression de ne pas s’exprimer exactement de la même manière dans chacune d’elles.
En portugais, une personne peut se sentir plus réservée, prudente ou émotive. En anglais, elle peut parler de façon plus directe, détendue ou assurée. Certains mots viennent naturellement dans une langue, mais semblent artificiels lorsqu’ils sont traduits. Certaines expériences semblent aussi plus faciles à expliquer dans une langue que dans une autre.
Est-ce que cela signifie que nous changeons de personnalité lorsque nous parlons une autre langue ?
Pas vraiment. Nous restons la même personne. Cependant, chaque langue peut activer des souvenirs, des émotions, des références culturelles et des façons différentes d’entrer en relation avec les autres. La recherche observe des changements dans la manière dont certaines personnes se décrivent et, dans certaines situations, dans leur comportement. Ces changements dépendent aussi de l’interlocuteur, du contexte et des cultures auxquelles la personne s’identifie : ce sont des variations dans l’expression de la personnalité, et non l’apparition d’une nouvelle personnalité.[1][2][3]
La langue ne sert pas seulement à transmettre une information
Nous pensons souvent la langue comme un instrument : nous avons une idée, nous choisissons des mots et nous la transmettons à quelqu’un d’autre.
En réalité, la relation entre langage et pensée est plus complexe. La langue que nous utilisons peut orienter notre attention, la manière dont nous regroupons certaines expériences et la façon dont nous décrivons ce que nous ressentons. Cela ne signifie pas qu’elle détermine ce que nous sommes capables de penser : ses effets tendent à être souples et à dépendre de la tâche et du contexte.[4]
Certains concepts ont une traduction directe, mais d’autres perdent une partie de leur sens lorsqu’ils passent d’une langue à une autre. Un mot peut porter des associations culturelles, émotionnelles et personnelles qui ne sont pas présentes dans son équivalent apparent.
Par exemple, dire « saudade » ne correspond pas exactement à dire « I miss you » ou « nostalgie ». Cela ne veut pas dire que seuls les lusophones peuvent ressentir la saudade. Cela signifie que les langues regroupent et mettent en relief des nuances émotionnelles de façon partiellement différente. Une étude portant sur des milliers de langues a trouvé à la fois des variations culturelles et des structures communes dans les relations entre les concepts émotionnels.[5]
Apprendre une autre langue ne signifie donc pas seulement apprendre d’autres mots pour désigner les mêmes choses. Cela peut aussi nous offrir de nouvelles manières de distinguer, de communiquer et d’organiser certains aspects de l’expérience.
Chaque langue est liée à une histoire différente
Les langues que nous parlons ne sont pas toutes apprises au même moment ni dans les mêmes circonstances.
La langue maternelle est souvent liée à l’enfance, à la famille, à l’école, aux premières relations et aux premières expériences émotionnelles. Une seconde langue peut avoir été apprise à l’adolescence ou à l’âge adulte, à travers les voyages, les études, le travail, les films, les amitiés ou la migration.
Chaque langue reste ainsi associée à des contextes différents.
Une personne qui a appris l’anglais grâce aux voyages, aux amitiés internationales et à des expériences positives peut l’associer à plus de liberté et de spontanéité. À l’inverse, sa langue maternelle peut être davantage liée aux attentes familiales, aux responsabilités et à des souvenirs émotionnels plus anciens.
L’inverse peut aussi se produire. Pour une personne vivant dans un pays étranger, la seconde langue peut être associée au travail, à la bureaucratie ou au sentiment de ne pas pouvoir s’exprimer avec toute la précision souhaitée. La langue maternelle peut alors représenter plus de sécurité, d’intimité et de profondeur émotionnelle.
Ce n’est pas seulement la structure de la langue qui produit ces différences. C’est aussi l’histoire vécue à travers elle.[1][2][3]
Nous pouvons paraître plus extravertis dans une autre langue
Certaines personnes disent se sentir plus confiantes, sociables ou directes lorsqu’elles parlent une langue étrangère.
Cela ne signifie pas nécessairement qu’elles ont développé une nouvelle personnalité. Cela peut signifier que la seconde langue est associée à des contextes dans lesquels elles ont appris à se comporter autrement.
La culture influence aussi ce qui est considéré comme une manière appropriée de communiquer. Toutefois, aucune culture n’est entièrement « directe » ou « réservée » : il existe d’importantes différences entre les personnes et les situations au sein d’une même communauté.
Lorsque nous parlons une autre langue, nous pouvons nous adapter, parfois sans nous en rendre compte, aux normes sociales que nous lui associons et à la personne avec laquelle nous parlons. Le ton de la voix, les gestes, le sens de l’humour et la distance que nous gardons avec les autres peuvent changer.[3]
Parler dans une langue étrangère peut aussi donner une impression de liberté. Certaines phrases semblent moins embarrassantes parce qu’elles sont moins liées aux règles et aux attentes intériorisées depuis l’enfance. Dans une série récente d’études, des personnes bilingues ont souvent préféré une langue étrangère pour parler de sujets embarrassants, en anticipant moins de conséquences émotionnelles et interpersonnelles.[6]
Pour cette raison, quelqu’un peut se sentir plus spontané en anglais et plus contenu en portugais, ou exactement l’inverse. La maîtrise de chaque langue, l’identité culturelle, l’interlocuteur et l’histoire vécue dans chaque contexte peuvent faire une différence. Être bilingue ne signifie pas, en soi, s’identifier de manière égale à deux cultures.
Les émotions peuvent avoir des intensités différentes
La première langue possède souvent un lien émotionnel particulièrement fort, mais elle n’est pas nécessairement la langue la plus proche émotionnellement à toutes les étapes de la vie.
C’est dans cette langue que beaucoup de personnes ont entendu les premiers mots d’affection, de réconfort, de critique, de colère ou de peur. Les mots n’ont pas été appris seulement à travers des définitions, mais aussi à travers des situations émotionnellement marquantes.
Certaines expressions peuvent donc provoquer une réaction plus intense lorsqu’elles sont entendues ou prononcées dans la première langue. Une phrase affectueuse peut sembler plus intime et une critique plus douloureuse. Les souvenirs tendent aussi à devenir plus accessibles lorsque la langue utilisée pour les rappeler correspond à celle du contexte dans lequel ils ont été vécus.[1][2][7]
Une langue apprise plus tard peut créer davantage de distance émotionnelle. Cela peut aider certaines personnes à parler d’événements difficiles, embarrassants ou douloureux. Pour d’autres, pourtant, c’est précisément dans cette langue qu’elles trouvent les mots les plus proches de ce qu’elles ressentent.
Raconter une expérience traumatique dans une seconde langue, par exemple, peut sembler moins intense que la raconter dans la première. Cette distance peut faciliter la parole, mais elle ne se produit pas chez tout le monde. Une seconde langue peut devenir profondément émotionnelle lorsqu’elle est liée à des relations importantes, à la migration ou à une partie centrale de la vie, et le changement de langue ne doit pas être interprété automatiquement comme une protection ou un évitement.[8]
Cela ne signifie pas que ce qui est dit est moins vrai. Cela signifie simplement que la langue utilisée peut modifier la proximité émotionnelle avec l’expérience.
Pensons-nous différemment dans une langue étrangère ?
La recherche suggère que l’utilisation d’une langue étrangère peut influencer certains processus de décision.
Une langue que nous maîtrisons moins peut nous demander plus de temps pour lire et répondre. Mais prendre plus de temps ne signifie pas nécessairement réfléchir plus attentivement.
Ce phénomène est parfois appelé « effet de la langue étrangère ». Dans certaines études, les participants ont pris des décisions différentes lorsque les problèmes étaient présentés dans une seconde langue. Une méta-analyse a observé des effets dans certaines tâches morales et de risque, mais a aussi montré qu’ils varient selon le type de décision, la maîtrise de la langue et la manière dont la tâche est présentée.[9]
Cependant, cela ne signifie pas que penser dans une langue étrangère soit toujours plus rationnel ou plus juste. Une maîtrise linguistique plus limitée peut aussi rendre les informations complexes plus difficiles à comprendre, limiter le vocabulaire disponible et augmenter l’effort mental.
L’influence de la langue dépend de plusieurs facteurs : le niveau de maîtrise, l’âge auquel elle a été apprise, le contexte dans lequel elle est utilisée et le lien émotionnel que la personne a développé avec elle.
Le choix de la langue en consultation psychologique
Ces différences deviennent particulièrement importantes en consultation psychologique.
La psychothérapie dépend, en grande partie, de la capacité à mettre en mots les expériences internes. C’est par le langage que l’on décrit les émotions, les pensées, les souvenirs, les relations et les difficultés qui, parfois, n’avaient jamais été partagés.
Certaines personnes préfèrent réaliser les séances dans leur langue maternelle parce qu’elles y trouvent une plus grande précision émotionnelle. Elles parviennent à expliquer plus clairement ce qu’elles ressentent et à accéder plus facilement à des souvenirs anciens.
D’autres préfèrent parler dans une seconde langue. La distance émotionnelle qu’elles y ressentent parfois peut les aider à aborder des sujets qui seraient trop intenses, embarrassants ou douloureux dans la première langue. Il arrive aussi que cette seconde langue soit celle dont elles se sentent le plus proches émotionnellement.[10][11]
La préférence peut aussi changer selon le thème. Une personne peut parler en anglais du travail, parce que c’est la langue qu’elle utilise professionnellement, puis passer au portugais en évoquant une situation familiale. Certains mots peuvent apparaître seulement dans une langue parce que c’est dans cette langue qu’ils représentent le mieux l’expérience.
Ce changement ne doit pas nécessairement être vu comme un obstacle. Il peut nous apprendre quelque chose de l’expérience de la personne, mais peut aussi être simplement le moyen le plus facile de trouver les mots. La recherche dans ce domaine repose encore surtout sur des études qualitatives et de petits échantillons. Il importe donc d’explorer le sens du choix linguistique avec chaque personne, sans présumer qu’une langue est toujours plus authentique ou que le changement représente un évitement.[10][11][12]
Dans ma pratique clinique, je propose des consultations de psychologie en portugais et en anglais. La possibilité de choisir la langue dans laquelle la personne se sent le plus à l’aise peut faciliter la communication et permettre à l’accompagnement de mieux respecter son histoire et son identité.
Plus que chercher une traduction parfaite de chaque phrase, il importe de créer un espace où la personne peut communiquer avec authenticité. Parfois, cela peut vouloir dire utiliser principalement une langue. À d’autres moments, cela peut impliquer de passer d’une langue à l’autre lorsque ce mouvement aide à exprimer quelque chose d’important.
La langue doit aussi être prise en compte dans l’évaluation psychologique
Cette question est également importante lorsque des tests et des instruments d’évaluation psychologique sont utilisés.
Une personne peut converser couramment dans une seconde langue et avoir malgré tout plus de difficulté à comprendre des expressions abstraites, un vocabulaire émotionnel ou des consignes complexes. La performance dans une tâche peut donc refléter non seulement ses capacités cognitives ou émotionnelles, mais aussi sa relation avec la langue dans laquelle l’évaluation est réalisée.
Les traductions d’instruments ne sont pas complètement neutres non plus. Une question qui semble simple dans une langue peut acquérir une autre signification culturelle ou émotionnelle dans une autre.
Pour cette raison, la langue préférée ne doit pas être automatiquement confondue avec la langue dominante. Le parcours d’apprentissage, la scolarité, l’usage actuel, le contexte culturel et même la variété régionale de la langue peuvent être pertinents. Une traduction correcte ne garantit pas non plus, à elle seule, que l’instrument dispose de normes, d’une validité et d’une fiabilité adaptées à cette population, ni que les scores puissent être comparés directement entre les versions.[13][14]
Nous n’avons pas plusieurs personnalités, mais plusieurs façons d’être nous-mêmes
Parler différentes langues ne crée pas des personnalités complètement séparées. Cependant, chaque langue peut donner accès à différentes parties de notre expérience.
Une langue peut nous rapprocher de l’enfance et de la famille. Une autre peut être associée à l’indépendance, au travail, aux voyages ou à une relation importante. Parfois, l’une peut rendre les émotions plus intenses ; dans d’autres circonstances, cette même langue peut nous aider à en parler.
Les différences que nous ressentons ne signifient pas qu’une des versions est fausse. Toutes font partie de la même personne.
Le langage n’est pas seulement une manière d’exprimer ce que nous sommes. Il est aussi l’un des contextes à travers lesquels nous construisons, rappelons et comprenons notre propre histoire.
Peut-être que la question la plus utile n’est donc pas « laquelle de ces versions est vraiment moi ? », mais plutôt : « que me permet chaque langue de sentir, de penser et de dire ? »