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Como lidar com o luto de um animal

Como lidar com o luto de um animal

Quando escrevi a primeira versão deste artigo, em 2025, a nossa cadela Molly tinha morrido há pouco tempo. Era ativa e esperta, e parecia ter uma saúde de ferro. Morreu inesperadamente, de um dia para o outro. Ainda hoje nos lembramos dela nos pequenos momentos do dia a dia.

Vínculo humano-animal

Para muitas pessoas, um animal de companhia é uma presença constante e uma relação de afeto importante. Pode fazer parte das rotinas, oferecer companhia e ocupar um lugar especial na família, sem que seja preciso comparar essa ligação com outras relações.[1] Em Portugal, a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária referia, em 2025, cerca de quatro milhões de animais registados no SIAC.[2]

O luto por um animal

Quando esse animal morre, a perda pode trazer grande sofrimento. Mas nem sempre encontra reconhecimento: há quem ouça que era «só um animal» e deixe de falar do que sente. Uma revisão que reuniu 78 estudos de vários países confirma a importância deste luto e questiona a ideia de o tratar como uma perda ilegítima. O que pode faltar é reconhecimento por parte dos outros, não legitimidade à relação que terminou.[3]

As pessoas também procuram formas diferentes de lidar com a perda. Algumas querem falar dela; outras precisam de algum tempo a sós, e as duas coisas podem acontecer no mesmo dia. Nenhuma destas respostas é, por si só, uma regra ou um erro.[4] Quando alguém próximo escuta sem diminuir o que aconteceu, torna-se mais fácil dar lugar à saudade. Pelo contrário, sentir que se tem de esconder a dor pode acrescentar solidão à perda.[3]

Nem todas as despedidas chegam da mesma maneira. No nosso caso, a morte da Molly foi súbita. Quando um animal envelhece ou adoece, pode haver preocupação e tristeza ainda antes da morte, ao mesmo tempo que se tenta cuidar dele e tomar decisões. Um estudo com pessoas que cuidavam de cães idosos associou esse luto antecipatório ao peso dos cuidados e à proximidade com o animal. Saber que a morte se aproxima não torna necessariamente a despedida mais fácil.[5]

Uma revisão de estudos qualitativos mostra que algumas pessoas vivem a morte de um animal com uma intensidade semelhante à de outras perdas importantes. À ausência juntam-se mudanças nas rotinas, dúvidas sobre decisões tomadas no fim de vida e, por vezes, culpa.[1] Um estudo publicado em 2026 encontrou também casos de sofrimento intenso e persistente. Não significa que todos passem pelo mesmo, mas lembra-nos de que esta perda pode merecer apoio clínico.[6]

A culpa pode aparecer em perguntas difíceis: «Devia ter percebido mais cedo?», «Tomei a decisão certa?». Quem acompanhou uma doença pode interrogar-se sobre tratamentos ou sobre a eutanásia; quem foi surpreendido pela morte pode procurar sinais que não viu. Nem sempre há uma resposta que faça desaparecer estas dúvidas. Num estudo sobre o fim de vida dos animais, sentir que se participou nas decisões e que o veterinário comunicou com empatia esteve associado a menos culpa e arrependimento.[7] Voltar a falar com o veterinário sobre o que aconteceu pode ajudar a compreender melhor as decisões tomadas com a informação disponível na altura.

Há uma diferença entre recordar o que aconteceu e ficar preso à pergunta «e se eu tivesse feito outra coisa?». Não é preciso proibir esse pensamento nem exigir a si próprio uma resposta definitiva. Pode ser mais útil reparar na dureza com que se está a julgar e procurar alguém com quem falar sem receio de ser criticado. Um estudo com pessoas recentemente enlutadas relacionou a autocompaixão com a forma como lidavam com o sofrimento, sobretudo quando sentiam que não podiam expressar a sua perda.[8]

A perda também se faz sentir em gestos simples: chegar a casa e já não encontrar o animal à porta, ou reparar no silêncio à hora do passeio. Pode fazer falta não só a companhia, mas o lugar que aquela relação ocupava nos dias. Por isso, uma rotina que antes parecia banal pode custar a retomar. É possível mantê-la, mudá-la ou deixá-la de lado durante algum tempo, sem que nenhuma destas escolhas meça o amor pelo animal.[1]

Dar lugar à memória

Lembrar não é necessariamente ficar preso ao passado. Guardar uma fotografia, contar histórias ou criar um pequeno ritual pode ajudar algumas pessoas a encontrar um lugar para essa relação depois da morte do animal. A investigação chama a estas formas de recordar «vínculos contínuos»; para outras pessoas, podem intensificar a dor.[9] Também não é preciso fazer um ritual para viver bem este luto: um estudo não encontrou uma relação entre a quantidade ou o tipo de memoriais e o crescimento psicológico após a perda.[10] O importante é perceber o que ajuda em cada momento, sem a pressão de «ultrapassar» a perda depressa.

Se está a passar por esta perda, estas sugestões podem ajudar. Não há um calendário nem uma forma certa de fazer o luto.[11]

  1. 1. Respeite o seu ritmo. A relação que tinha com o animal, as perdas anteriores e o apoio à sua volta podem influenciar o que sente. Talvez queira guardar os brinquedos e as tigelas durante algum tempo; talvez prefira afastá-los. Não precisa de tomar todas as decisões nos primeiros dias. Pode voltar a elas quando se sentir preparado.
  2. 2. Cuide também de si. A tristeza pode alterar o sono, o apetite e a energia. Tente manter, tanto quanto possível, refeições, descanso e alguma atividade, mesmo que a rotina tenha perdido sentido por uns tempos. Falar do que sente com alguém de confiança pode aliviar a solidão; não precisa de explicar por que motivo o vínculo era importante.[11]
  3. 3. Não se apresse a decidir sobre outro animal. Pode querer voltar a ter um animal daqui a semanas, meses ou anos, ou pode não querer. Um novo companheiro não substitui aquele que perdeu, e a decisão não precisa de obedecer às expectativas dos outros.[9]
  4. 4. Reorganize as rotinas à sua maneira. Talvez aquela caminhada diária faça falta. Pode mantê-la, mudar o percurso ou criar outra atividade. Se o passeio era também um momento de exercício ou convívio, pense em como quer conservar essa parte dos seus dias.
  5. 5. Peça apoio quando precisar. Pode começar por falar com alguém que conheça bem a relação que tinha com o animal. Se o sofrimento for intenso, persistir ou dificultar a vida quotidiana, procure um profissional de saúde mental. Não tem de esperar por um prazo específico nem de justificar por que razão esta perda lhe custa tanto.[11]

Revisto a 22 de setembro de 2026.

Referências

  1. Cleary, M., West, S., Thapa, D. K., Westman, M., Vesk, K., & Kornhaber, R. (2022). Grieving the loss of a pet: A qualitative systematic review. Death Studies, 46(9), 2167–2178.
  2. Direção-Geral de Alimentação e Veterinária. (2025). Documento de Identificação do Animal de Companhia já disponível na app gov.pt.
  3. Alves, A. F. R., & Scorsolini-Comin, F. (2025). Grief for the loss of a pet: A scoping review on the grief of dog and cat owners. Journal of Humanistic Psychology. Publicação antecipada online.
  4. Park, R. M., Royal, K. D., & Gruen, M. E. (2023). A literature review: Pet bereavement and coping mechanisms. Journal of Applied Animal Welfare Science, 26(3), 285–299.
  5. Taylor, T. L., Tuke, J., & Hazel, S. J. (2025). ‘With great love comes great grief’: Exploring anticipatory grief and canine cognitive dysfunction. Veterinary Record. Publicação antecipada online.
  6. Hyland, P. (2026). No pets allowed: Evidence that prolonged grief disorder can occur following the death of a pet. PLOS ONE, 21(1), e0339213.
  7. Testoni, I., De Cataldo, L., Ronconi, L., Colombo, E. S., Stefanini, C., Dal Zotto, B., & Zamperini, A. (2019). Pet grief: Tools to assess owners’ bereavement and veterinary communication skills. Animals, 9(2), 67.
  8. Bussolari, C., Habarth, J. M., Phillips, S., Katz, R., & Packman, W. (2021). Self-compassion, social constraints, and psychosocial outcomes in a pet bereavement sample. OMEGA: Journal of Death and Dying, 82(3), 389–408.
  9. Hughes, B., & Lewis Harkin, B. (2025). The impact of continuing bonds between pet owners and their pets following the death of their pet: A systematic narrative synthesis. OMEGA: Journal of Death and Dying, 90(4), 1666–1684.
  10. Spain, B., O’Dwyer, L., & Moston, S. (2019). Pet loss: Understanding disenfranchised grief, memorial use, and posttraumatic growth. Anthrozoös, 32(4), 555–568.
  11. Ordem dos Psicólogos Portugueses. (s.d.). Luto: fact sheet.

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Wilson Ferreira Santos é psicólogo, inscrito na Ordem dos Psicólogos Portugueses com o n.º 25219.

Estes textos acompanham uma prática clínica centrada numa leitura cuidadosa e humana da experiência psicológica.

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