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Pendurar as chuteiras: quem somos quando deixamos de fazer o que nos definiu?

Um veterano ceifa um campo de trigo, com o casaco militar e o cantil pousados no chão, na pintura de Winslow Homer.
Winslow Homer, The Veteran in a New Field (1865). The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque / Wikimedia Commons, domínio público.

O desporto torna particularmente visível uma pergunta que não pertence apenas aos atletas: como aceitar que já não conseguimos, ou já não queremos, continuar como antes? E, sobretudo, quem somos quando deixamos de ocupar o lugar que durante tanto tempo nos definiu?

Podemos encontrar esta pergunta nas discussões sobre o fim da carreira de um futebolista, mas também na aproximação da reforma, numa mudança de profissão ou quando a saúde obriga a reduzir uma atividade. São situações diferentes: um atleta pode terminar a carreira muito antes da velhice, e reformar-se não significa ter perdido capacidades. Ainda assim, estas mudanças podem mexer com algo que vai além da rotina: a maneira como nos reconhecemos.

«Pendurar as chuteiras» parece uma decisão simples vista de fora. Por dentro, pode significar despedirmo-nos de uma rotina, deixar de fazer o que sabíamos fazer melhor ou aprender a viver sem a função pela qual os outros nos conheciam.

Quando uma função se torna parte de nós

Uma profissão pode ocupar muito mais do que as horas de trabalho. Organiza os dias, aproxima-nos de outras pessoas, dá objetivos e permite sentir que fazemos falta. Quando dizemos «sou professor», «sou médico» ou «sou atleta», estamos frequentemente a dizer algo sobre a nossa história, e não apenas sobre a atividade pela qual recebemos um salário.

A investigação sobre o sentido de vida na reforma ajuda a compreender esta ligação. A forma como vivemos a mudança depende também do que o trabalho significava para nós e do que continua a dar sentido aos nossos dias. Não existe uma única experiência psicológica de reforma. [1]

Ter uma ligação forte ao que fazemos não é um defeito. A mudança pode tornar-se mais difícil quando essa função é quase a única resposta à pergunta «quem sou eu?». Num estudo com antigos atletas de alta competição, as dificuldades de identidade estavam associadas a experiências mais negativas da transição. O problema não é a dedicação em si, mas a dificuldade de reconhecer outras partes da vida quando esse papel termina. [2]

Podemos falar de luto?

Num sentido amplo, podemos falar de luto quando precisamos de reorganizar a vida perante a perda de algo importante. Não apenas de uma pessoa, mas também de uma possibilidade, de um lugar que ocupávamos ou de uma versão de nós próprios.

Esta é uma maneira de compreender a experiência, não um diagnóstico nem uma etapa obrigatória da reforma. Algumas pessoas vivem uma perda marcada; outras sentem sobretudo alívio. As duas experiências também podem coexistir: estar satisfeito por deixar de trabalhar não impede ter saudades de certas pessoas ou da sensação de ser necessário. Nas entrevistas com antigos atletas, os relatos de perda coexistiam com uma avaliação positiva da vida depois da carreira. [2]

Também não devemos confundir tristeza perante uma mudança com depressão. Uma revisão de estudos longitudinais encontrou uma associação mais forte entre sintomas depressivos e reforma involuntária do que com reforma voluntária ou determinada pelas regras de idade. As diferenças lembram-nos que sair por escolha e sair por imposição não são a mesma experiência. [3]

Reconhecer uma perda não transforma a mudança numa tragédia. Permite dar tempo a quem ainda está a despedir-se de uma parte importante da sua vida, sem lhe exigir entusiasmo imediato.

O confronto com quem já fomos

Às vezes, não nos comparamos apenas com os outros. Comparamo-nos com a pessoa que éramos: a que corria mais depressa, resolvia tudo sem se cansar ou era chamada sempre que havia um problema difícil.

Num estudo com adultos entre os 50 e os 90 anos, comparar-se desfavoravelmente com o próprio passado estava associado a menor autoestima. Mas os participantes não percebiam perdas em tudo: sentir menor capacidade física era mais frequente do que sentir menor capacidade mental ou de lidar com dificuldades. O estudo não esclarece o que influencia o quê, mas ajuda a distinguir uma dificuldade específica de uma avaliação da pessoa inteira. [4]

«Já não consigo fazer isto como antes» é uma observação. «Já não sirvo para nada» é uma conclusão muito mais ampla, que essa observação não demonstra.

Nem toda a dificuldade é definitiva, nem toda a diminuição de desempenho significa que chegou o momento de parar. O envelhecimento também não segue um calendário uniforme de incapacidade: pessoas da mesma idade podem ter condições e possibilidades muito diferentes. [5]

Talvez a pergunta mais útil não seja «ainda sou tão bom como fui?», mas «o que consigo fazer agora, em que condições e com que custo?». Aceitar uma mudança pode começar por olhar para ela com clareza, sem a negar nem a transformar numa sentença sobre o nosso valor.

Persistir ou mudar de direção?

Aprendemos a valorizar a persistência. E com razão: muitas coisas importantes exigem continuar apesar das dificuldades. Mas persistir não é sempre a resposta certa, tal como desistir não é sempre um sinal de maturidade.

Uma meta-análise sobre ajustamento de objetivos distingue dois movimentos: deixar de investir numa meta e encontrar outras em que investir. A capacidade de se afastar de objetivos inviáveis estava associada a menor mal-estar; envolver-se em novos objetivos também se relacionava com maior bem-estar. A evidência, de qualidade baixa a moderada, não permite prometer que mudar de objetivo nos fará sentir melhor. Mostra, porém, que a persistência não é a única capacidade que importa. [6]

Mudar de direção nem sempre exige abandonar uma atividade. Pode significar reduzir o ritmo, alterar responsabilidades ou preservar o que nos importa através de outra forma de participação. Não temos de escolher apenas entre continuar exatamente como antes e abandonar tudo.

Também importa perceber o que nos faz insistir. Num estudo com atletas, procurar atingir padrões elevados estava associado a indicadores de saúde mental mais favoráveis, enquanto a preocupação com erros e avaliações negativas se relacionava com maior sofrimento. Embora não investigue a reforma, o estudo ajuda a distinguir a ambição da dureza com que nos julgamos. [7]

Podemos querer continuar porque gostamos profundamente do que fazemos. E podemos continuar porque parar nos parece uma prova de fracasso. Vale a pena perceber a diferença, mesmo quando as duas razões convivem.

A forma como nos deixam sair

Deixar uma função não é apenas uma mudança individual. É também uma mudança nas relações com quem estava à nossa volta.

No estudo australiano já referido, vários antigos atletas descreveram sentir-se dispensáveis depois do fim da carreira, com pouco contacto ou acompanhamento das organizações. O apoio das equipas estava associado a menos dificuldades de identidade. O apoio das equipas, dos amigos e da família relacionava-se também com menos dificuldades em lidar com outras exigências da vida após a carreira. [2]

Esta dimensão impede-nos de reduzir tudo a «não saber aceitar». Deixar uma função e sentir que deixámos de contar são coisas diferentes. Podemos aceitar que outra pessoa ocupe o nosso lugar e sofrer com a sensação de que tudo o que fizemos foi esquecido.

Reconhecer um percurso, conversar sobre a passagem de responsabilidades e manter relações para além da utilidade imediata são formas de tratar a pessoa como alguém que não se esgota na função. Não exigem prolongar indefinidamente o mesmo papel; permitem que ele termine sem que termine também a consideração pela pessoa.

Uma vida que não precisa de começar do zero

Fala-se frequentemente da reforma como uma oportunidade de «reinvenção». Para algumas pessoas, essa palavra faz sentido. Para outras, acrescenta pressão: depois de uma vida de trabalho, parece ser preciso apresentar uma nova versão extraordinária de si próprias.

Não é necessário apagar o passado para viver de outra maneira. Podemos levar connosco interesses, relações e conhecimentos, sem ter de continuar a fazer tudo como antes. Num estudo que acompanhou pessoas ao longo da reforma, manter a pertença a grupos sociais estava associado a melhor qualidade de vida. A associação não prova causalidade, mas ajuda a perceber a importância das relações, para além de ter a agenda preenchida. [8]

Também seria injusto apresentar a adaptação como uma questão de atitude. Uma meta-análise sobre ajustamento à reforma identifica a relevância da saúde, das condições financeiras e das circunstâncias da saída, entre outros fatores. As possibilidades de escolha não são iguais para todos. [9]

Ter uma atividade nova, ensinar o que sabemos ou participar numa associação pode ser significativo. Mas descansar, cultivar amizades ou recuperar tempo para interesses antigos também pode sê-lo. O valor de uma pessoa não precisa de ser novamente demonstrado através da produtividade.

Encontrar lugar para o que vem a seguir

Preparar esta mudança não significa ter o futuro completamente resolvido. Pode começar por perceber o que a atividade nos dá: rendimento, estrutura, contacto, reconhecimento, prazer ou um motivo para sair de casa. Distinguir essas necessidades permite procurar diferentes formas de lhes responder, em vez de exigir que uma única atividade substitua tudo.

Por exemplo, um professor pode sentir falta de ensinar, das conversas com os colegas ou do ritmo que a escola dava à semana. São faltas diferentes. Partilhar conhecimentos pode responder à primeira; manter encontros regulares, à segunda; criar uma rotina, à terceira. Nenhuma destas possibilidades exige reconstruir a vida profissional por inteiro.

Também pode ajudar conversar sobre o que vai mudar, preservar relações que fazem sentido e experimentar outros interesses antes de a função terminar. Estas possibilidades devem ser ajustadas às condições e desejos de cada pessoa, não transformadas numa lista de obrigações para uma «boa reforma».

Quando o sofrimento se prolonga, limita a vida quotidiana ou se acompanha de isolamento crescente, pode fazer sentido procurar apoio psicológico. Não para aprender a desistir, mas para compreender o que se perdeu, o que permanece e que possibilidades ainda existem.

Pendurar as chuteiras pode custar, sobretudo quando as calçámos durante grande parte da vida. Mas deixar de fazer aquilo que nos definiu não apaga a história nem nos reduz ao que já não conseguimos fazer.

Talvez aceitar a mudança seja isto: reconhecer que uma parte da vida terminou, sem concluir que terminámos com ela.

Referências

  1. Wood, R. E., e Pachana, N. A. (2025). The role of meaning in the retirement transition: scoping review. The Gerontologist, 65(6), gnaf076. Artigo.
  2. Brockett, C. L., Stansen, C., Bourke, M., Pascoe, M., Clements, M., e Parker, A. G. (2024). Factors that influence mental health and well-being of high-performance athletes from Olympic or Paralympic sport who have transitioned out of national-level or international-level sport: a mixed methods approach. BMJ Open Sport & Exercise Medicine, 10(2), e001991. Texto integral.
  3. Li, W., Ye, X., Zhu, D., e He, P. (2021). The longitudinal association between retirement and depression: a systematic review and meta-analysis. American Journal of Epidemiology, 190(10), 2220–2230. Registo bibliográfico.
  4. Ferring, D., e Hoffmann, M. (2007). “Still the same and better off than others?”: social and temporal comparisons in old age. European Journal of Ageing, 4, 23–34. Texto integral.
  5. Organização Mundial da Saúde. Ageing and health. Ficha informativa.
  6. Riddell, H., e colaboradores. (2026; publicação online em 2025). A meta-analytic review and conceptual model of the antecedents and outcomes of goal adjustment in response to striving difficulties. Nature Human Behaviour, 10, 317–332. Artigo.
  7. Turakka, S., White, R. G., Robazza, C., Keinonen, K., e Ruiz, M. C. (2026). Perfectionism and athletes’ mental health: the mediating role of self-compassion. Performance Enhancement & Health, 14(3), 100431. Artigo.
  8. Steffens, N. K., e colaboradores. (2016). Social group memberships in retirement are associated with reduced risk of premature death: evidence from a longitudinal cohort study. BMJ Open, 6, e010164. Artigo.
  9. La Rue, C. J., Haslam, C., e Steffens, N. K. (2022). A meta-analysis of retirement adjustment predictors. Journal of Vocational Behavior, 136, 103723. Artigo.

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Wilson Ferreira Santos é psicólogo, inscrito na Ordem dos Psicólogos Portugueses com o n.º 25219.

Estes textos acompanham uma prática clínica centrada numa leitura cuidadosa e humana da experiência psicológica.