A recente adaptação cinematográfica da Odisseia por Christopher Nolan trouxe de novo para o imaginário público uma das histórias mais antigas sobre viagem, perda, sobrevivência e regresso. A história de Ulisses pode ser lida de muitas formas, mas uma delas aproxima-se particularmente da experiência migratória: alguém deixa a sua terra, atravessa lugares desconhecidos, aprende a adaptar-se a códigos que não domina, perde partes da vida anterior e continua, apesar de tudo, orientado pela ideia de voltar a casa.
Fora do mito, mudar de país pode ser uma escolha muito desejada, uma oportunidade profissional, uma necessidade familiar ou uma forma de procurar segurança. Pode abrir possibilidades reais: mais autonomia, melhores condições económicas, estudo, amor, aprendizagem, contacto com outras formas de viver. Mas mesmo quando a decisão é voluntária e faz sentido, a mudança pode tocar quase tudo aquilo que ajuda uma pessoa a sentir-se orientada no mundo — e é por aí que vale a pena começar.
A emigração não é, por si só, um problema de saúde mental. A repatriação, ou seja, o regresso ao país de origem depois de viver fora, também não é necessariamente uma crise. Mas ambas podem alterar a relação com a língua, com a família, com o trabalho, com o estatuto social, com as rotinas e com a própria ideia de pertença. Por isso, quando surgem tristeza, ansiedade, irritabilidade, solidão, saudade, insónia ou a sensação difícil de explicar de se estar "entre lugares", isso não significa automaticamente que algo esteja errado com a pessoa. Significa, muitas vezes, que a vida mudou em várias camadas ao mesmo tempo — e é precisamente essa mudança em camadas que a imagem de Ulisses ajuda a visualizar.
Monstros, disfarces e Ítaca
Nesta travessia, os monstros raramente têm a forma dos monstros de Homero. Podem aparecer como burocracias difíceis de compreender, barreiras linguísticas, solidão, discriminação, saudade, precariedade ou a sensação de se estar sempre a provar competência num lugar onde a história anterior não é conhecida. Há também uma espécie de disfarce social: a pessoa pode ter sido reconhecida, competente e segura no país de origem, mas no novo contexto começa quase do início. O sotaque, o currículo, os hábitos e as referências culturais passam a ser lidos de outra maneira.
Ítaca, neste sentido, não é apenas um ponto no mapa. É a imagem de um lugar onde esperamos ser reconhecidos sem explicação. Mas o regresso, quando acontece, raramente é simples: pela altura em que Ulisses regressa, Ítaca já não é exatamente a casa de onde partiu, e ele próprio também foi transformado pela viagem. Algo semelhante pode acontecer na repatriação. A pessoa volta a ruas conhecidas, a uma língua familiar e a relações antigas, mas descobre que nem tudo encaixa como antes: o país mudou, as pessoas seguiram as suas vidas, e quem regressa traz consigo uma experiência que nem sempre é fácil de traduzir.
Este desencontro não significa que o regresso tenha sido errado. Significa apenas que a migração muda a relação com a casa. Para algumas pessoas, voltar é reencontrar raízes; para outras, é perceber que a pertença passou a existir em mais do que um lugar. A tarefa psicológica talvez se aproxime menos de "chegar finalmente a Ítaca" e mais de integrar aquilo que a viagem tornou visível: quem se era, quem se tentou ser fora e quem se tornou possível depois dessa travessia. É essa mesma travessia, aliás, que vale a pena olhar mais de perto — não só no seu significado simbólico, mas no que muda, de facto, no dia a dia.
O que muda quando mudamos de país?
Quando alguém emigra, não muda apenas de morada. Muda também de códigos. A travessia continua no quotidiano, quando aquilo que antes acontecia quase sem pensar passa a exigir tradução, atenção e energia: pedir ajuda, perceber o humor de uma conversa, explicar sintomas noutra língua, tratar de burocracias, procurar casa, encontrar médico ou reorganizar a relação com a família à distância. Aos poucos, a pessoa descobre que a adaptação não acontece apenas nos grandes momentos, mas também nestas pequenas tarefas que tornam um lugar habitável.
Por isso, a adaptação não depende apenas de "força de vontade". Depende das condições reais que rodeiam a mudança: segurança económica, habitação, estatuto legal, emprego, discriminação, domínio da língua, apoio social, possibilidade de regressar e acesso a cuidados de saúde. A Organização Mundial da Saúde sublinha precisamente que a saúde mental de refugiados e migrantes é influenciada por fatores anteriores à partida, pela própria transição e pelas condições encontradas no país de destino. Estas condições, aliás, ajudam a explicar porque é que a própria palavra usada para descrever uma mudança de país nunca é neutra.
Emigração, expatriação e repatriação
Usamos palavras diferentes para experiências que, por vezes, se sobrepõem. "Emigração" descreve a saída do país de origem; "imigração" descreve a chegada ao país de destino. "Expatriação" costuma ser usada para pessoas que vivem temporariamente fora, muitas vezes por motivos profissionais, embora nem sempre exista uma fronteira clara entre "emigrante" e "expatriado".
Do ponto de vista psicológico, porém, a palavra usada importa menos do que as condições concretas da mudança. Uma pessoa transferida por uma empresa, com contrato estável, apoio à família e seguro de saúde, enfrenta desafios diferentes dos de alguém que se muda sozinho, sem rede, com trabalho precário ou estatuto legal incerto. Ambas podem sofrer, mas os riscos e os recursos não são iguais. A experiência migratória deve ser compreendida no contexto em que acontece, e não como se todas as mudanças de país fossem emocionalmente equivalentes.
A repatriação merece a mesma atenção. Regressar pode parecer simples a quem ficou: "voltaste para casa". Para quem regressa, porém, o desafio pode ser mais ambíguo: reencontrar um lugar na própria casa, explicar uma experiência que os outros não viveram, lidar com expectativas antigas ou perceber que certas autonomias conquistadas fora deixam de existir da mesma forma. O regresso pode trazer alívio, mas também estranheza, comparação e a sensação de não pertencer completamente a lado nenhum. É esse desencontro entre o que se perdeu e o que continua a existir, só que à distância, que dá forma ao que se chama luto migratório.
O luto migratório: perder sem deixar de ter
Uma das experiências mais frequentes na migração é precisamente essa: o luto migratório. Não se trata apenas de sentir saudades. É uma forma de perda múltipla e, muitas vezes, ambígua, porque aquilo que se perde continua a existir, mas à distância. A família, os amigos, a comida, os sotaques, as paisagens, o humor partilhado, as celebrações e a sensação de saber "como as coisas funcionam" não desaparecem; ficam noutro lugar, acessíveis por mensagens, viagens, fotografias e memórias, mas já não fazem parte do quotidiano da mesma maneira.
Isto ajuda a explicar uma experiência que pode parecer contraditória: é possível gostar do novo país e sentir falta do anterior; agradecer a oportunidade e sofrer com a distância; ter escolhido emigrar e, ainda assim, viver tristeza, culpa ou nostalgia. O luto migratório não anula a escolha feita, nem prova que a mudança foi errada. Mostra apenas que uma vida significativa deixa marcas quando muda de forma.
Não se perder de si não significa ficar igual. No luto migratório, talvez signifique reconhecer que algumas partes da vida anterior deixam de estar disponíveis como antes, sem concluir por isso que desapareceram ou deixaram de importar. Ao mesmo tempo, é preciso construir novas rotinas, novas pertenças e novas formas de se reconhecer no lugar onde agora se vive.
A língua também pode fazer parte desta reorganização. Para algumas pessoas, falar noutra língua traz liberdade, distância ou reinvenção; para outras, torna mais difícil ser espontâneo, pedir conforto ou explicar aquilo que se sente. Manter a língua de origem não é sinal de má integração, tal como aprender a língua do país de acolhimento não é uma traição à origem. Entre uma língua e outra, muitas pessoas vão encontrando uma forma própria de existir sem apagar a história anterior.
Solidão, rede social e vida prática
A solidão depois de emigrar nem sempre tem a ver com falta absoluta de pessoas. Pode haver colegas, conhecidos, vizinhos, eventos e mensagens constantes, e ainda assim faltar intimidade, história partilhada ou a sensação de ser compreendido sem grande explicação. Ao mudar de país, perdem-se também relações discretas que sustentavam o quotidiano: a pessoa do café, o farmacêutico, o vizinho, o caminho habitual, a família alargada, o grupo informal que não exigia apresentação.
Uma rede saudável costuma ser plural. Pessoas da mesma origem podem oferecer reconhecimento e continuidade; pessoas locais podem facilitar pertença, língua e compreensão do sistema; relações ligadas a atividades, como trabalho, desporto, voluntariado, arte, religião ou estudo, permitem que a identidade não fique reduzida a "ser estrangeiro". Construir este tipo de rede costuma demorar, e talvez por isso seja importante não confundir demora com fracasso — nem, já agora, confundir sofrimento prolongado com uma simples questão de tempo.
Quando a adaptação pesa demasiado
Nem todo o sofrimento precisa de intervenção clínica. Há períodos de transição que pedem tempo, descanso, relação e reorganização. Mas pode ser importante procurar apoio quando a tristeza, a ansiedade ou a irritabilidade persistem, quando o sono se deteriora de forma marcada, quando a pessoa se isola, quando começa a sentir que falhou por não se adaptar "bem", ou quando surgem ataques de pânico, consumo crescente de álcool ou outras substâncias, perda de esperança, dificuldade em trabalhar ou estudar, ou pensamentos de morte.
Vale ainda a pena ter cuidado com a comparação. Há pessoas que parecem adaptar-se rapidamente, mas sofrem em silêncio; outras precisam de mais tempo. A adaptação não é uma competição, nem uma prova de valor pessoal — e é a partir desta ideia que talvez valha mais a pena pensar no que realmente ajuda, em vez de no que "deveria" ajudar.
O que pode ajudar?
Algumas estratégias podem ajudar, desde que sejam realistas e não se transformem em mais uma lista de obrigações. Dar nome ao que se perdeu é um primeiro passo importante, porque permite reconhecer a saudade sem a transformar em culpa ou fraqueza. A língua, a música, as receitas, os rituais, os objetos, as datas e certas conversas podem funcionar como pequenos pontos de orientação quando a pessoa sente que a vida perdeu temporariamente o mapa.
Ao mesmo tempo, a adaptação precisa de corpo e de repetição. Voltar aos mesmos lugares, criar horários possíveis, conhecer o bairro, encontrar um médico, participar numa atividade ou estabelecer pequenas rotinas locais pode tornar o novo espaço progressivamente mais habitável. A pertença raramente aparece como uma decisão súbita; nasce, muitas vezes, de experiências repetidas, de relações simples que se tornam regulares e de pequenos sinais de previsibilidade.
Também pode ser útil separar adaptação de assimilação. Integrar-se não exige apagar a origem, o sotaque, os valores ou a memória. Pelo contrário, a investigação sobre aculturação sugere que os melhores resultados tendem a surgir quando a pessoa consegue manter vínculos significativos à sua cultura de origem enquanto participa de forma ativa na sociedade de acolhimento. A questão não é escolher uma só pertença, mas encontrar uma forma menos dividida de viver entre continuidade e mudança. E é frequentemente em terapia que esse equilíbrio começa a ganhar forma.
Fazer terapia estando fora ou depois de regressar
A terapia pode ajudar a pensar a experiência migratória sem a reduzir a um diagnóstico. Pode ser um espaço para compreender o que se perdeu, o que se ganhou, o que ficou suspenso e que versão de si está a tentar emergir.
Emigrar pode ser uma expansão. Regressar pode ser uma reconstrução. Ficar entre países pode ser uma forma legítima de pertença. Talvez a questão não seja voltar intacto à mesma Ítaca, porque isso raramente acontece, mas encontrar uma forma habitável de reconhecer a viagem, as perdas, os ganhos e a pessoa que se tornou possível depois dela.
Revisto a 25 de agosto de 2026.
Referências
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Organização Mundial da Saúde. (2026). Refugee and migrant health. WHO
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