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Fazer amigos na idade adulta: porque custa e o que pode ajudar

Um grupo conversa à volta de uma mesa numa varanda, na pintura de Renoir.
Pierre-Auguste Renoir, Luncheon of the Boating Party (1880–1881). The Phillips Collection, Washington, DC / Wikimedia Commons, domínio público.

Há pessoas com quem conversamos no trabalho, outras que encontramos no ginásio, outras ainda com quem trocamos mensagens. Mas, quando apetece combinar alguma coisa ou precisamos de falar sobre um dia difícil, nem sempre sabemos a quem recorrer. Podemos conhecer muita gente e sentir falta de amigos.

Na escola, parte da convivência acontecia sem ser preciso organizá-la. Encontrávamos as mesmas pessoas quase todos os dias, entre aulas, intervalos e trabalhos de grupo. Na idade adulta, estar juntos tende a exigir mais combinações. Entre o trabalho, os cuidados com a família e o cansaço, uma conversa agradável pode ficar por ali.

Não significa que tenhamos perdido a capacidade de fazer amigos. Muitas vezes, mudaram sobretudo as condições em que uma amizade pode começar e crescer.

Porque parece mais difícil fazer amigos em adulto?

As nossas relações mudam ao longo da vida. Uma revisão de 277 estudos encontrou, em média, uma redução das redes de amizade ao longo da idade adulta e alterações associadas a acontecimentos como começar a trabalhar ou tornar-se pai ou mãe. Ter uma rede mais pequena não significa, porém, ter perdido a capacidade de fazer novos amigos, nem todas as pessoas seguem o mesmo percurso.[1]

Mudar de cidade pode afastar-nos das pessoas com quem a convivência era fácil. Um novo emprego traz contactos, mas nem sempre tempo para conhecer melhor os colegas. Ter filhos pode aproximar-nos de outros pais e, ao mesmo tempo, reduzir a disponibilidade para os amigos de antes. Algumas relações mantêm-se; outras afastam-se ou começam a ganhar lugar na nossa vida.

Em Portugal, um relatório do Iscte, publicado em 2025 com dados recolhidos em 2024, indica que 40% dos mil participantes disseram ter feito um novo amigo no último ano. O inquérito foi realizado online, com pessoas dos 18 aos 64 anos, procurando refletir as características da população dessa faixa etária com acesso à internet. O relatório não foi revisto por pares e os resultados não abrangem todas as idades e situações. Ainda assim, mostram que há novas amizades a nascer na vida adulta.[2]

Nem tudo depende da vontade. O dinheiro, os transportes, os horários e as responsabilidades de cuidado condicionam a possibilidade de estar com outros. Num estudo com trabalhadores do comércio nos Estados Unidos, a imprevisibilidade dos horários estava associada a menos relações no trabalho. Recomendar simplesmente «saia mais» deixa de fora uma parte importante do problema.[3]

Conhecer pessoas não é o mesmo que construir uma amizade

Uma atividade pode facilitar o primeiro contacto. Não garante que alguém se torne nosso amigo. É possível frequentar um curso durante meses, conversar cordialmente e continuar sem sentir proximidade com ninguém.

A investigação de Jeffrey Hall, com adultos que tinham mudado de residência e estudantes no início da universidade, associou o tempo passado em conjunto, sobretudo em atividades de lazer, a uma maior proximidade nas amizades. As estimativas de horas obtidas nesses estudos não são um prazo a cumprir. Passar tempo com alguém pode favorecer uma amizade, mas também procuramos estar mais com quem já nos sentimos próximos.[4]

Os encontros ganham continuidade quando retomamos uma conversa, nos lembramos de algo que a outra pessoa contou ou propomos voltar a estar juntos. Aos poucos, pode surgir espaço para falar de outras coisas além daquilo que nos juntou.

Isso não obriga a fazer confidências nem a levar todas as relações para fora do seu contexto. Um amigo do trabalho pode continuar a ser sobretudo um amigo do trabalho. Há amizades feitas de conversas leves, de uma atividade partilhada ou do prazer de estar juntos. Não precisam de se tornar íntimas para terem valor.

A incerteza dos primeiros encontros

Quando conhecemos alguém de quem gostamos, nem sempre sabemos se o interesse é correspondido. Podemos recear parecer insistentes, interpretar uma pausa como desinteresse ou sair de uma conversa a rever aquilo que dissemos.

Numa série de estudos com pessoas que se estavam a conhecer, os participantes tenderam, em média, a subestimar quanto os seus interlocutores tinham gostado deles e da sua companhia. Não é uma garantia de que o outro queira uma amizade. Mas sugere que podemos sair de uma conversa com uma impressão mais negativa do que aquela que ele teve.[5]

Um convite simples permite descobrir mais do que continuar a adivinhar: «Gostei da conversa. Combinamos um café um destes dias?» Não é preciso saber já o que a relação poderá vir a ser para propor outro encontro.

Pode não haver disponibilidade ou vontade. Nem todas as afinidades se desenvolvem, e uma recusa não é uma avaliação do nosso valor nem do que outras relações poderão vir a ser.

O que pode ajudar, na prática?

Escolher contextos a que seja possível regressar. Uma atividade regular, um grupo local ou um espaço que já faça parte da rotina pode facilitar novos encontros com as mesmas pessoas. O melhor contexto não é necessariamente o mais interessante no papel, mas aquele em que é realmente possível participar.

Dar seguimento a uma conversa. Nem sempre é preciso conhecer mais pessoas. Por vezes, vale a pena retomar o contacto com alguém com quem já houve alguma afinidade: perguntar como correu algo de que falaram ou enviar uma mensagem sobre um interesse comum.

Fazer propostas simples e concretas. Um café depois de uma atividade, uma caminhada curta ou um almoço próximo do trabalho podem ser mais fáceis de combinar do que um plano exigente. «Um dia temos de combinar» pode ficar por uma intenção; sugerir uma ocasião dá-lhe uma oportunidade de acontecer.

Encontrar formas de convivência compatíveis com a vida atual. Nem toda a gente pode reservar uma noite por semana ou pagar uma nova atividade. Estar juntos pode caber numa pausa, num passeio habitual ou numa conversa à distância. A opção possível não tem de ser uma versão inferior de uma vida social ideal.

São sugestões informadas pela investigação, não um programa testado para fazer amigos. Ajudam a procurar oportunidades, mas uma relação envolve também as preferências e as circunstâncias de outra pessoa.

E quando sou sempre eu a tomar a iniciativa?

Ser quem propõe mais encontros não significa necessariamente gostar mais da relação. Há pessoas que organizam com facilidade e outras que participam com interesse, mas raramente tomam a iniciativa. Ainda assim, sentir que todo o esforço fica do mesmo lado pode ser cansativo.

A satisfação com uma amizade também se relaciona com aquilo que cada pessoa espera dela. Um estudo com registos diários de interações encontrou associações entre as expectativas, o seu cumprimento e a satisfação. Outro, com 212 pares de amigos jovens adultos, associou as diferenças entre o apoio desejado e recebido à qualidade da relação, de formas que variavam consoante o tipo de apoio. São estudos sobre amizades existentes, não uma medida de quem se interessa mais. Também não demonstram que a solução seja esperar menos dos amigos.[6] [7]

Pode ser mais útil olhar para o conjunto do que contar mensagens: quando estão juntos, existe atenção? A pessoa mostra interesse? Quando não pode aceitar um convite, procura outra oportunidade? Há espaço para as necessidades de ambos?

Numa amizade já estabelecida, dizer «tenho sentido falta de estarmos juntos» pode esclarecer mais do que esperar que o outro adivinhe. Compreender a falta de disponibilidade não obriga, porém, a conformar-se com uma relação em que se sente sistematicamente só. Também é legítimo investir noutros contactos, sem transformar cada afastamento numa acusação.

Não é preciso ter um grande grupo

Podemos sentir falta de companhia para fazer coisas, de alguém com quem falar com confiança ou de um grupo a que pertençamos. São necessidades diferentes. Perceber qual delas pesa mais ajuda a procurar algo mais concreto do que simplesmente «ter mais amigos».

Também não há um único ritmo certo. Algumas pessoas sentem-se bem com contactos espaçados; outras precisam de uma presença mais regular. Gostar de estar sozinho não impede querer companhia. E a solidão não se resume ao número de pessoas à nossa volta: no relatório português, havia mais participantes a referir solidão frequente do que ausência de amigos.[2]

Quando o medo da rejeição, a tristeza ou o isolamento tornam persistentemente difícil aproximar-se dos outros, o acompanhamento psicológico pode ajudar a compreender o que está a acontecer e a encontrar formas de lidar com essas dificuldades. Não substitui a convivência, mas pode ajudar a torná-la mais acessível.

Fazer amigos em adulto pode exigir uma iniciativa que antes ficava a cargo das circunstâncias. Nem todos os convites serão aceites, nem todas as relações irão aprofundar-se. Não é preciso, contudo, encontrar de imediato um grande grupo ou uma amizade íntima. Por vezes, o começo é voltar a conversar com alguém com quem nos apetece estar.

Referências

  1. Wrzus, C., Hänel, M., Wagner, J., & Neyer, F. J. (2013). Social network changes and life events across the life span: A meta-analysis. Psychological Bulletin, 139(1), 53–80. https://doi.org/10.1037/a0028601
  2. Lima, M. L., Camilo, C., Rodrigues, D., & Romão, Â. (2025). A Amizade em Portugal: Como é? O que mudou? Relatório 2: Relatório final. CIS-Iscte. http://hdl.handle.net/10071/36940
  3. Shepherd, H. (2024). Organizational practices and workplace relationships in precarious work: New survey evidence. Social Networks, 77, 79–92. https://doi.org/10.1016/j.socnet.2021.10.003
  4. Hall, J. A. (2019). How many hours does it take to make a friend? Journal of Social and Personal Relationships, 36(4), 1278–1296. https://doi.org/10.1177/0265407518761225
  5. Boothby, E. J., Cooney, G., Sandstrom, G. M., & Clark, M. S. (2018). The liking gap in conversations: Do people like us more than we think? Psychological Science, 29(11), 1742–1756. https://doi.org/10.1177/0956797618783714
  6. Hall, J. A., Larson, K. A., & Watts, A. (2011). Satisfying friendship maintenance expectations: The role of friendship standards and biological sex. Human Communication Research, 37(4), 529–552. https://doi.org/10.1111/j.1468-2958.2011.01411.x
  7. Youngvorst, L. J., & Ruppel, E. K. (2025). Social support among emerging adult friends: Dyadic and longitudinal associations between support gaps and relational quality. Journal of Social and Personal Relationships, 42(7), 1629–1656. https://doi.org/10.1177/02654075251330360

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Wilson Ferreira Santos é psicólogo, inscrito na Ordem dos Psicólogos Portugueses com o n.º 25219.

Estes textos acompanham uma prática clínica centrada numa leitura cuidadosa e humana da experiência psicológica.